O tempo é de limpar e reconstruir o que a fúria da tempestade destruiu e de respeitar a memória de todos quantos, infelizmente, perderam a vida e o luto dos seus familiares.
Contudo, não posso calar a revolta que me vai na alma.
Mesmo correndo o risco de ser acusado de "aproveitamento político" - e não pretendo retirar qualquer proveito desta tragédia! -, enquanto dirigente político eleito pelas populações cujos direitos devo defender, tenho que relembrar os erros cometidos ao nível do estreitamento das ribeiras, das construções em cima das linhas de água, da extracção descontrolada de inertes a montante e demais situações que contribuíram para agravar uma tragédia que, não podendo ser evitada, poderia ao menos ser minorada.
É incrível a mentira, que tantas vezes repetida, parece ser verdade. Disse o Presidente do Governo que se não tivesse sido efectuada a canalização das Ribeiras as consequências teriam sido piores.
Mas julgam que somos todos burros?
Não é preciso ser especialista para saber que a redução para metade da largura dos leitos de algumas ribeiras e a canalização estranguladora desses leitos são factores que contribuíram para aumentar a força das águas e a devastação da cidade.
É evidente que a quantidade anormal de precipitação que ocorreu no passado sábado causaria, mesmo numa situação de exemplar ordenamento do território, uma enorme catástrofe.
Contudo, parece evidente que todos estes erros potenciaram e agudizaram as consequências mortais desta verdadeira calamidade e, doa a quem doer, há que verificar se existiu negligência humana em toda esta tragédia. Para isso, é fundamental a constituição de uma Comissão Parlamentar de Inquérito no sentido de apurar responsabilidades, pois a culpa não pode, como é hábito nesta terra, voltar a morrer solteira.
Agora é necessário, primeiro que tudo, deitar mãos à obra. Reconstruir é a palavra de ordem. Mas que tipo de reconstrução queremos?
Não será necessário devolver às ribeiras a largura que tinham antes do seu estrangulamento? Não será necessário destruir a rotunda, junto ao Dolce Vita, construída em cima de uma ribeira e deitar abaixo algumas construções que foram atingidas e que poderão voltar a ser? Não será necessário repensar a actual configuração da própria Avenida do Mar, com intervenções que dêem mais espaço ao desaguar das três grandes ribeiras? Não será necessário repensar a localização dos vários empreendimentos junto à foz da ribeira da Ribeira Brava deitando abaixo, se necessário, alguns deles? Não será necessário pensar na construção de outro acesso ao Curral das Freiras, de modo a evitar o constante isolamento daquela Freguesia, com as consequências que todos nós conhecemos?
Enfim, questões de um "energúmeno ignorante que não tem formação académica em matéria de ordenamento do território" mas que, nesse dia, a exemplo de muitos outros madeirenses, viu a morte bem próxima!
Post-scriptum 1: Os mais sinceros sentimentos e condolências a todos quantos perderam os seus entes queridos.
Post-scriptum 2: Uma palavra de apreço e reconhecimento aos Bombeiros, PSP, GNR, e demais entidades envolvidas no resgate e no socorro de pessoas e bens.