Quem conhece a Madeira sabe que ela não consegue parar de nos surpreender e o mesmo pode ser dito da Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira. Ao mesmo tempo que víamos notícias sobre o agravamento da situação no Médio Oriente, somos novamente surpreendidos, embora, para quem já conhece as peças em causa, talvez nem tanto, pelo Governo da Madeira.
Numa sessão plenária, onde é habitual os ânimos exaltarem-se, tivemos o desprazer de ouvir, com o microfone ligado, os comentários do secretário regional do Turismo, Eduardo Jesus. O secretário, por várias vezes, terá chamado uma deputada do PS de "burra do caralho" e um deputado do JPP de "palhaço-mor", entre outras expressões igualmente ridículas.
Mas o que verdadeiramente me surpreende não é o comportamento deste governante, até porque a conduta de vários membros do PSD Madeira já é sobejamente conhecida. O que me surpreende mais é a sua total falta de maturidade: apanhado em flagrante delito, não foi capaz, em primeiro lugar, de pedir desculpa diretamente aos visados e, mais grave ainda, não teve a dignidade de se demitir por respeito à casa da democracia madeirense e a todos os madeirenses que se veem representados na ALRAM.
Não é de agora que comentários de membros do Governo ou até de deputados eleitos pelo PSD roçam a grunhice, muitas vezes semelhante ao estilo do Chega. Aliás, na Madeira, o PSD é um exemplo exímio disso mesmo.
Para piorar a situação, ao ver que esta cena circense estava a ganhar grande mediatismo a nível regional e nacional, com várias figuras a pedir a demissão de Eduardo Jesus ou a comentar quão inaceitável era o seu comportamento, o secretário fez o que se esperaria e pediu desculpa mas esperem... é aqui que a porca torce o rabo porque não pediu desculpa aos visados e pediu desculpa à presidente da ALRAM, justificando que esta representaria todos os deputados da Assembleia, incluindo os visados, lembrando que também ela é do PSD e que por isso é sempre mais fácil que enfrentar os insultados.
Ora, não me lembro de algum episódio recente na Assembleia Legislativa da Madeira que se assemelhasse tanto a uma discussão infantil em que uma criança, por ter ofendido outra, pede desculpa à professora em vez de pedir desculpa diretamente ao colega que insultou.
É esta a qualidade dos nossos governantes e é este o nível de imaturidade que reina. E, como se não bastasse, Eduardo Jesus tentou justificar-se dizendo que todos os termos que utilizou "estão no dicionário". Ora, este termo que vou usar, não sei se está ou não no dicionário, mas é preciso ter uma grande "cara de pau" para se sair com uma desculpa destas.
Os comentários foram ridículos e são inaceitáveis em democracia. Mais inaceitável ainda é deixarmos que um governante se sinta impune após tais atitudes. Aliás, este sentimento de impunidade está entranhado no PSD. O PSD sente que, por governar há décadas a Madeira, tem as costas largas. Mesmo quando há casos de corrupção, de comportamentos inaceitáveis, ou de desrespeito institucional, consegue sempre dar a volta mas, este sentimento de impunidade por parte dos governantes do PSD já não me espanta. É a norma. Mas é precisamente por isso que devemos mostrar-lhes que estão errados. Não acredito que este secretário deva permanecer em funções após desrespeitar deputados eleitos, a democracia madeirense e, acima de tudo, após ter demonstrado tamanha imaturidade ao lidar com as consequências dos seus atos.
Eduardo Jesus deve demitir-se já.
Alegrou-me, aliás, saber que foi iniciada uma petição a pedir a sua demissão porque isso mostra que ainda há na Madeira quem se preocupe com a dignidade da casa da democracia.
O secretário do turismo chega a ser um expoente máximo daquilo que tem sido a política madeirense: muitas vezes, um jogo de "jobs for the boys" que se sentem impunes e intocáveis. ( até que o povo decida lhes provar o contrário )
Mas também é preciso dizer que este sentimento de impunidade, por parte do Governo Regional e dos seus deputados, se deve à falta de uma oposição como o Bloco de Esquerda na ALRAM. Era o Bloco quem levantava a voz com mais firmeza perante estes atropelos democráticos e era o Bloco quem fazia a diferença, impondo limites e exigindo elevação na política madeirense mas, agora que a ALRAM está sem o Bloco de Esquerda, vemos cenas como esta e sentimos, mais do que nunca, a falta que o Bloco faz porque a oposição na madeira tornou-se fraca e impotente. Veja-se, por exemplo, uma oposição que nem sequer votou contra o Orçamento da Madeira. Gostaria de saber se o Orçamento era assim tão bom para merecer zero votos contra...
A Madeira está entregue ao governo PSD-CDS. Mas está também entregue à disfuncionalidade de uma oposição frouxa. Isso nota-se nos casos que envolvem desrespeito à democracia. Nota-se nas sessões plenárias, nas aprovações dos orçamentos, nas apresentações (ou falta delas) de propostas concretas.