A longa sombra da extrema-direita e a dança como resistência

porGabriel Coelho

04 de março 2026 - 14:51
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A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi precisamente a tentativa de fundar um novo ordenamento político com base na dignidade humana e não em qualquer graça divina. E foi precisamente contra esta fundação secular que a extrema-direita original se ergueu.

Em 11 de setembro de 1789, quando os deputados franceses se dividiram fisicamente entre a direita e a esquerda da Assembleia Constituinte, poucos perceberam que estavam a criar não apenas uma disposição de mobiliário parlamentar, mas um mapa cognitivo que marcaria os séculos seguintes. À direita, os defensores do veto real e da ordem divina; à esquerda, os herdeiros do Iluminismo e da razão crítica. Mas o que os livros de História frequentemente omitem é o terceiro elemento presente naquele salão: o medo teológico. O medo de que, sem Deus, sem Rei, sem a hierarquia sagrada que ligava o céu à terra, a sociedade desmoronaria no caos. Joseph de Maistre, o profeta da contrarrevolução, não argumentava apenas contra a democracia, mas contra a própria ideia de que os seres humanos pudessem governar-se a si mesmos sem uma tutela do trono e/ou do altar. A extrema-direita nasce, essencialmente, como uma teologia política, uma negação do humanismo em nome de uma ordem transcendente. A Revolução Francesa representou assim o primeiro momento em que a humanidade ousou dizer que não há ordem natural que nos condene à servidão. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão foi precisamente a tentativa de fundar um novo ordenamento político com base na dignidade humana e não em qualquer graça divina. E foi precisamente contra esta fundação secular que a extrema-direita original se ergueu. É precisamente neste ponto crucial que encontramos o fio condutor que nos une a 1789. De facto, a extrema-direita sempre foi, em última instância, a ideologia do paternalismo desesperado, a recusa em aceitar que somos, cada um de nós, responsáveis pelo mundo que criamos, sem nenhum Deus, sem nenhum rei, sem nenhum líder carismático que nos diga quem somos ou devemos ser.

O período entre 1918 e 1939 vem transformar a extrema-direita do século XIX numa força ofensiva, totalitária e, paradoxalmente, revolucionária. Sim, revolucionária. A verdade é que movimentos que se autodesignavam "revolucionários" e "modernos" conseguiram apelar simultaneamente a mitos arcaicos, rituais pagãos e uma nostalgia mística da "comunidade sanguínea". Sabemos que o fascismo tem uma natureza bastante híbrida enquanto religião política. Mussolini não era um conservador a defender o passado, senão mais um nihilista a ansiar pelo futuro. Hitler não glorificava a tradição cristã mas prometia uma "revolução permanente" racial baseada em mitos germânicos pré-cristãos. O nazismo, em particular, desenvolveu uma liturgia completa. Desde os rallies em Nuremberga, o culto do sangue e do solo, a promessa de um Reich milenar… tudo isto funcionava como uma secularização da escatologia cristã, mas de alguma forma invertida, isto é, não a salvação individual da alma, mas a salvação coletiva da raça através da violência redentora.

A derrota militar do nazismo e do fascismo em 1945 não significou o fim das ideias que os alimentaram. Significou apenas a sua deslegitimação temporária e uma mudança de estratégia religiosa. Nos EUA, o Macarthismo demonstrou que o anticomunismo podia ser tão persecutório quanto o fascismo europeu, mas agora revestido da retórica judaico-cristã. A Guerra Fria transformou a extrema-direita num aliado necessário contra os soviéticos. Foi nos anos 50 e 60 que a direita cristã americana começou a organizar-se, fundindo o fundamentalismo religioso com o anticomunismo militante. Em Portugal e Espanha, as ditaduras de Salazar e Franco mantiveram vivas as chamas do autoritarismo sob a bênção da Igreja. O catolicismo político tornou-se a ideologia do Estado, onde ser-se antirregime era sinónimo de se ser anticristão.

O que vemos hoje, de Trump aos partidos da extrema-direita europeus e não só (Milei na Argentina, por exemplo), não é uma mera repetição do fascismo clássico. É já uma hibridização pós-moderna que combina o nacionalismo étnico do século XIX, o culto do líder do século XX, as técnicas digitais do século XXI e uma, chamemos-lhe, religiosidade de consumo. A extrema-direita contemporânea aprendeu a usar o relativismo pós-moderno contra si mesmo. Quando a academia progressista insistia que todas as verdades eram construções sociais, a extrema-direita respondeu: "Muito bem, então a nossa verdade sobre a superioridade da civilização ocidental é tão válida quanto a vossa sobre a igualdade". E criou-se assim uma “teologia da vitimização,” o "cristão branco oprimido", a "civilização judaico-cristã ameaçada", que inverte completamente a história tornando vítimas os opressores e ameaças as vítimas.

Para compreender como estas dinâmicas históricas e teológicas se manifestam no presente, basta olhar para o que aconteceu recentemente no Estádio da Luz, a 17 de fevereiro de 2026. Vinícius Júnior marca golo e, ao celebrar, dança junto à bandeira de canto, o que alguns verão como uma afirmação de alegria negra num espaço tradicionalmente branco e elitista. Um jogador do Benfica aproxima-se de Vinícius, tapa a boca com a camisola e, segundo testemunhas, profere o insulto "mono" (macaco). O gesto de tapar a boca aqui é bastante simbólico. A tentativa de negar a própria visibilidade do crime, de manter o ódio no domínio do insinuado, do entendido e do passível de ser desmentido. Entretanto, das bancadas ouvem-se cânticos racistas e dois adeptos fazem gestos de macaco em direção a Vinícius. O macaco aqui surge como uma caricatura colonial que reduz o ser humano a menos que primata. É uma liturgia da humilhação. É a repetição ritualística de uma hierarquia racial que remonta ao colonialismo, à escravatura e, sim, às ideias de "ordem natural" que a extrema-direita do século XIX defendia. Mas há algo mais profundo aqui: a inversão da culpa. Vinícius é apresentado como o provocador por dançar, por celebrar, por ser visível. O racismo torna-se então uma reação "compreensível" à sua "arrogância". Esta é a lógica perversa que justifica a violência contra as minorias desde sempre. Primeiro cria-se a condição de subalternidade, depois criminaliza-se a resposta à subalternidade. Alguém leu isto e lembrou-se do feminismo? Da luta pelos direitos LGBTQIA+? Da Palestina?

Em 1789, quando os deputados se levantaram daquele salão em Versalhes, não sabiam se estavam a fundar uma nova ordem ou a presenciar o caos. Hoje, 236 anos depois, enfrentamos a mesma incerteza. A extrema-direita que nasceu naquele dia, como reação ao desafio da autonomia humana, ainda não foi definitivamente vencida. Mas também não foi definitivamente vitoriosa. Como já escrevi neste mesmo espaço, a História ainda não terminou.

Vinícius Júnior, ao dançar no Estádio da Luz, ofereceu-nos a imagem poderosa da alegria enquanto resistência. Como escreveu Albert Camus, refletindo sobre outra época de extremismo: "No meio do inverno, aprendi finalmente que havia em mim um verão invencível." Este verão, esta capacidade humana de esperança, de criação, de empatia pelo próximo sem nenhum tipo de distinção é a nossa herança mais preciosa. Defender essa herança, sem ilusões mas também sem rendição, é o mais claro imperativo ético do nosso tempo.

Gabriel Coelho
Sobre o/a autor(a)

Gabriel Coelho

Professor de Matemática e Ciências Naturais, co-criador do podcast Quarteto dos Três Ateus Miguel e Gabriel
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