Lo que pasó a Hawaii de Europa

porDiogo Teixeira

28 de janeiro 2025 - 22:27
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Na nova música de Bad Bunny, Lo Que Pasó a Hawaii, o artista expressa o medo de que Porto Rico sofra o mesmo destino que o Havai. Estas palavras poderiam descrever perfeitamente o que está a acontecer na Madeira.

"Querem tirar-me o rio e também a praia, querem o bairro meu e que o teu filho se vá." Este é o refrão traduzido da nova música de Bad Bunny, Lo Que Pasó a Hawaii, onde o artista expressa o medo de que Porto Rico sofra o mesmo destino que o Havai. Contudo, estas palavras poderiam descrever perfeitamente o que está a acontecer na Madeira.

Depois de cair nas mãos do imperialismo americano, o Havai viu o seu património natural, cultural e histórico ser reduzido ou transformado em prol do lucro, seguindo a lógica destrutiva do capitalismo. Da mesma forma, na Madeira, a especulação imobiliária e o turismo descontrolado colocam em risco o que torna a região única, sacrificando o bem-estar dos residentes em nome dos interesses económicos de uns poucos.

Estas ilhas, muitas vezes apelidadas de "Havai da Europa" — uma comparação que considero inocente, mas irrealista, dadas as enormes diferenças naturais, culturais e históricas entre os dois arquipélagos — sempre foram sinónimo de florestas virgens, montanhas esculpidas na pedra e de gentes e culturas nelas forjadas. Sem esquecer, claro, as areias da "ilha dourada", que parecem filigrana sobre ondas de um azul cristalino.

No entanto, para tristeza das suas gentes, estes tesouros estão ameaçados — não ainda pelo imperialismo americano (não vá Donald Trump e a sua primeira-dama Elon Musk descobrir a ilha!), mas por um imperialismo económico que explora a Madeira. Este procura anexar cada vez mais terreno, substituindo o verde e a terra pelo tão "precioso betão", que garante lucros quase inesgotáveis a grandes grupos económicos.

Imaginem só: numa ilha rodeada de mar, é difícil encontrar acesso livre e gratuito à costa na sua capital. Grande parte do litoral está ocupado por hotéis e, nas poucas opções restantes, o acesso é pago. Para piorar, a última praia de livre acesso no Funchal, a Praia Formosa, tão presente nas memórias dos madeirenses, está agora em risco de ser transformada no "quintal" de empreendimentos de luxo pensados para o local.

Enquanto o Havai passou de reino soberano a estado americano que perde a sua identidade para a gentrificação, a Madeira, embora ainda sob a mesma bandeira portuguesa, assemelha-se cada vez mais a um parque de diversões para turistas. As casas com roupa pendurada nas janelas foram substituídas por alojamento local. As pessoas que nelas habitavam são empurradas para fora das ruas onde viveram toda a sua vida. As típicas tascas, símbolos da gastronomia e do convívio madeirense, são cada vez mais raras, substituídas por locais onde se tomam brunches, e onde se ouve inglês, francês e alemão, mas pouco ou nenhum português.

Até as levadas, outrora essenciais para levar água do Norte ao Sul da ilha, são agora trilhos pagos. E, porque para os "senhores ricos" a nossa natureza precisa de ser "melhorada", as montanhas, já foi anunciado, serão em breve apetrechadas com pontes suspensas, novos teleféricos e mais um campo de golfe — a somar aos três que já existem no arquipélago, como se fosse pouco. Tudo isto põe em risco a sustentabilidade da região e despindo o nosso território da sua beleza natural.

Já cantava a diva do fado português, Amália Rodrigues: "Lisboa, não sejas francesa." Hoje, eu diria: "Madeira, não te queremos tão burguesa." Não te queremos entregue à exploração, à custa dos trabalhadores que não ganham o suficiente para desfrutar da sua própria terra.

O Havai, terra que recebeu muitos madeirenses em tempos já idos e que deles recebeu o ukulele, a braguinha madeirense, sabe bem o custo a pagar pelo capitalismo. E a Madeira, de semelhante forma, está a descobrir o mesmo. Na RAM, estas são as consequências mais visíveis de 50 anos de má governação do PSD, com a conivência do CDS, PAN, IL e Chega nestes anos mais recentes! E, quando falta o pão, a habitação, a saúde e a educação, o que resta para os madeirenses senão sobreviver? Esperemos que nas próximas eleições de 23 de março a música seja outra.

Diogo Teixeira
Sobre o/a autor(a)

Diogo Teixeira

Licenciado em línguas e relações empresariais. Membro da CNJ, da comissão coordenadora e dos jovens do Bloco Madeira. Atualmente, trabalha como especialista em marketing e publicidade (estagiário). Mestrando em gestão pela Universidade da Madeira
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