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Líderes perigosos

Trump e Bolsonaro nada têm feito para combater as raizes das desigualdades nos seus países. Pelo contrário. Perante uma situação de pandemia como a que vivemos resolveram antes celebrar as suas fragilidades.

Soubemos esta semana que Bolsonaro mudou de opinião em relação ao risco que enfrentamos com o coronavírus. Aparentemente, terá ligado a Trump e puseram-se de acordo que, afinal, a coisa é mais perigosa do que eles pensavam. Bolsonaro afirmou há não muito tempo que estávamos perante uma "gripezinha". Trump quis convencer o mundo que a questão era de temperatura e que, com o calor, a ameaça esfumar-se-ia como que por milagre. A Primavera chegou e os Estados Unidos começam a entrar a sério no pesadelo da pandemia. As certezas de ambos desapareceram rapidamente, mas quantas vidas se perderam por causa da estupidez?

As tendências negacionistas de Bolsonaro e de Trump não vêm de hoje. Seja qual for o desafio global que enfrentemos, aí estão eles para negá-lo. Assim o vimos no que toca às alterações climáticas. Que os negacionistas do clima sejam também os da pandemia do coronavírus não é surpreendente. A base comum é a recusa do conhecimento científico, já que lhes serve mais um mundo onde prevaleçam as opiniões. Só assim podem sobreviver como líderes.

Em tempos de incerteza como os que vivemos, em que o que antes era um ambiente seguro se transforma numa ameaça, é mesmo fundamental basear as decisões políticas no conhecimento disponível, sobretudo quando sabemos que o grau de vulnerabilidade das populações depende, em grande medida, do grau de ineficiência das instituições. É nestes momentos que assistimos a uma maior indissociação do técnico e do político. O que se espera das lideranças dos diferentes países é que tenham as condições e a capacidade para garantir que as respostas dadas são as mais adequadas em cada momento.

Com mais de um milhão de registos de pessoas infectadas e dezenas de milhares de mortos vão-se tornando evidentes os custos das lideranças impreparadas e irresponsáveis. São lideranças perigosas para as nossas vidas, as nossas economias e as nossas sociedades. Só nos Estados Unidos, mais de 29 milhões de pessoas não possuem seguro de saúde, estima-se que os custos de tratamento de uma pessoa doente possam ascender a 75 mil dólares, o que está claramente fora das possibilidades da maioria dos cidadãos. É, por isso, cada vez mais evidente a importância de serviços de saúde públicos e universais para que o direito à saúde possa ser consagrado numa base de igualdade. No Brasil as desigualdades atrozes colocam os mais pobres em situações insustentáveis. Trump e Bolsonaro nada têm feito para combater as raizes das desigualdades nos seus países. Pelo contrário. Perante uma situação de pandemia como a que vivemos resolveram antes celebrar as suas fragilidades. Que as suas atitudes são criminosas parece já não restar grande dúvida, resta saber se algum dia serão julgados pelos seus crimes.

Artigo publicado no “Diário de Notícias” a 4 de abril de 2020

Sobre o/a autor(a)

Eurodeputada, dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.
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