Liberais sempre de mão estendida

porFrancisco Louçã

15 de fevereiro 2021 - 16:41
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Há um hospital vazio em Miranda do Corvo, o Hospital Compaixão. Um candidato presidencial, Tiago Mayan, visitou-o em campanha e saiu a ferver de indignação. Ora bem, a história merece ser contada e é um retrato do liberalismo no nosso país.

Há um hospital vazio em Miranda do Corvo, o Hospital Compaixão. Um candidato presidencial, Tiago Mayan, visitou-o em campanha e saiu a ferver de indignação, querem lá ver que o polvo do Estado recusa salvar os doentes por puro preconceito ideológico contra a iniciativa privada. Ora bem, a história merece ser contada e é um retrato do liberalismo no nosso país.

O hospital foi construído pela Fundação Assistência para o Desenvolvimento e Formação Profissional (ADFP), uma instituição que inclui várias unidades de saúde na região centro e cujo presidente é um dinossauro do PSD, Jaime Ramos, que foi deputado, vice-presidente da bancada, governador civil de Coimbra e presidente da Câmara de Miranda do Corvo em sucessivos mandatos. Este Hospital Compaixão é o seu principal investimento, mas, para surpresa dos inocentes, nunca abriu portas. Não tem porteiro, nem telefonista, nem administrativos, nem um único profissional de saúde. É um edifício vazio.

Chegadas as eleições presidenciais e encontrado um porta-voz voluntarioso, o “escândalo” chegou à praça pública: temos aqui estas camas e salas cirúrgicas, tudo pronto, e o Estado recusa-se a enviar doentes. Como disse o candidato noutro dos seus melhores momentos, a ministra da saúde é responsável por dez mil mortes (só?), é assim uma espécie de Pol Pot em versão lusíada. Ora, perguntadas pela imprensa, as autoridades de saúde manifestaram perplexidade: como é que vamos mandar doentes covid, ou outros, para um hospital que está fechado e não tem nem um enfermeiro nem uma médica? O dr. Ramos explicou então candidamente numa reportagem da SIC que o que queria, precisamente, era que o Estado lhe garantisse o pagamento dos profissionais que ainda não contratou e que lhe despachasse os clientes que ainda não tem. Ou seja, a iniciativa privada quer que o sector público lhe pague as despesas e lhe proteja o negócio. Não pretende somente convenções, quer uma garantia de cobertura dos custos e uma salvaguarda das receitas. Sem isso, continua amuado e não contrata ninguém. Só abre portas se o Estado lhe assegurar a tesouraria e os proveitos.

A mais atrevida das imaginações não conseguiria conceber um retrato tão fiel sobre o liberalismo português. Com direito a fanfarra eleitoral, um operador político estende o chapéu ao Estado, não para que o ajude a singrar ou para colaborar numa urgência sanitária, mas para que os dinheiros públicos lhe prometam a caixa registadora. Como bem explicou outro destacado prosélito liberal, o dr. Mesquita Nunes, quem critica esta fé são os que “não percebem nada de economia”.

Artigo publicado no jornal “Expresso” a 5 de fevereiro de 2021

Francisco Louçã
Sobre o/a autor(a)

Francisco Louçã

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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