As notícias sobre a fome na Somália têm todos os vícios das notícias sobre a fome na periferia do sistema-mundo: são notícias triviais, sobre pessoas sem rosto, com impactos nulos sobre as nossas vidas. Ou seja, são notícias sobre nós mais que sobre as vítimas.
Onze milhões de pessoas estão hoje em condição de sub-nutrição naquela região. Perto de quatro milhões carecem de socorro alimentar imediato e muitas centenas de milhar fugiram para campos de refugiados em que o dia-a-dia se tornou humanamente degradante. Mas do lado de cá do mundo, esta é uma realidade percebida com a indolência que anima tanto os prime timetelevisivos como as análises superficiais do problema.
O que esta fome nos ensina é, desde logo, que não aprendemos nada com as diferentes fomes que a antecederam nas últimas três décadas. Então como agora, as recomendações insistentes dos organismos internacionais para a constituição de reservas alimentares em escala local ou regional foram varridas por poderosos interesses de agentes de mercado que jogam tudo na escalada especulativa dos preços dos bens alimentares essenciais. A especulação e o mercado desregulado continuam a prevalecer sobre a segurança alimentar e o direito humano à alimentação.
A segunda lição é a de que o socorro humanitário e os programas de mínimos podem, na melhor das hipóteses, baixar a febre ao doente mas arriscam-se a perpetuar a sua doença. A mobilização de recursos para dar resposta às necessidades de auxílio urgente aos/às somalis é um imperativo da decência básica. Mas nada de substancial se alterará para o futuro. É por isso que a adopção de indicadores mínimos – como os dos Objectivos do Desenvolvimento do Milénio – sendo importantes em si mesmos, se limitam a fazer face às expressões mais grotescas da pobreza e da desigualdade mas não afrontam os mecanismos que as produzem. Uma política de esquerda de cooperação para o desenvolvimento não pode deixar de ter esta referência como central.
A terceira lição é a de que explicar o que se passa hoje no Corno de África recorrendo ao estafado conceito de “Estados falhados” é tão preguiçoso e politicamente equívoco como explicar os conflitos no Cáucaso ou nos Balcãs como expressões da “guerra de civilizações”. Preguiça pura. E intencionada, além do mais. Porque se dispensa de perguntar por que “falharam” os Estados “falhados”. A Somália, por exemplo: por que razão um Estado auto-suficiente em alimentação até aos anos oitenta se tornou num pais em que a fome mata sem cessar? Não é preciso escavar muito na realidade para perceber que a desestruturação social e económica e a fragilização extrema das instituições tiveram nos programas de ajustamento estrutural ali executados pelo FMI e Banco Mundial a sua raiz inequívoca. Agora, como então, ver apenas nas elites locais corruptas e criminosas os autores do crime e não querer ver os mandantes que as suportam diz muito da superficialidade das análises que nos dão a ver o mundo como se ele fosse o cenário de um filme de índios e cowboys de série B.