A lenga-lenga do voto inútil

porEduardo Couto

05 de janeiro 2026 - 14:41
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O apelo ao voto útil parte sempre da mesma ideia inútil: a de que votar em quem acreditamos é um luxo. Um capricho. Algo que se pode – eventualmente - fazer quando está tudo bem (como se alguma vez estivesse estado), mas nunca quando as coisas estão mal.

Em todas as eleições a receita do centrão é sempre a mesma: “cuidado, minha gente, se não votarem em mim vem aí o diabo”. Através dessa perspetiva, tenta-se matar à nascença qualquer ideia de melhoria da vida comunitária por via da defesa do mesmísmo, que já cansa – e cansa a mais gente do que alguns de nós podemos imaginar.

Cansa porque aparece sempre no mesmo momento: quando a política deixa de ter imaginação e passa a pedir contenção, nos mais diversos eixos. Quando já não há promessa e/ou compromisso nenhum para fazer, só um aviso a deixar. “Tenham tento e portem-se bem”, dizem-nos.

António José Seguro usa na sua lapela, constantemente e insistentemente, essa conversa, embrulhada num tom melancólico, como quem vem lembrar-nos que a vida é dura e que não vale a pena esperar muito mais dela, sob o risco de ela hipoteticamente poder a ficar ainda mais dura.

O apelo ao voto útil parte sempre da mesma ideia inútil: a de que votar em quem acreditamos é um luxo. Um capricho. Algo que se pode – eventualmente - fazer quando está tudo bem (como se alguma vez estivesse estado), mas nunca quando as coisas estão mal. Para o extremo-centro, a política só serve para administrar danos e não para escolher e disputar rumos.

As presidenciais têm duas voltas. Duas. Isto não é um detalhe técnico, é o centro da coisa. A primeira volta existe para dizer quem somos, o que queremos, que país achamos minimamente aceitável. Transformá-la num exercício de medo preventivo é alinhar numa batota.

E é precisamente por isso que faz sentido votar em Catarina Martins na primeira volta. A esquerda, se quer virar o bico ao prego, não pode entrar neste teatro do inevitável. Porque não aceita a ideia de que a única escolha sóbria a fazer tem de ser entre versões ligeiramente diferentes do mesmo cansaço.

O voto útil vive de uma chantagem emocional muito específica: “eu sei que isto não entusiasma, mas é o que há”. E o problema é que, quando aceitamos isso, estamos a aceitar muito mais do que um candidato. Estamos a aceitar que esta vida curta, apertada, sempre no limite — salários que mal chegam, serviços públicos por um fio, uma sensação constante de andar a empurrar o mês com a barriga — é o máximo a que podemos aspirar.

É assim que a política deixa de falar de futuro e passa a gerir resignação.

Dizem-nos que propor outra coisa é irresponsável. Que mudar o modelo de país é bonito, mas perigoso. Que primeiro é preciso “estabilizar”. O curioso é que esta conversa dura há décadas e a tal estabilidade nunca chegou. O que chega é o hábito de escolher o menos mau, outra vez, e depois outra vez.

A primeira volta não é para isto. Nunca foi. A primeira volta é para votar sem pedir desculpa. Para votar com convicção e com determinação. Porque sem isso não há correlação de forças, não há pressão política, não há sequer discussão séria sobre alternativas.

O voto útil não é, por isso, inútil. É um medo organizado. É uma forma engravatada de nos dizer que não vale a pena querer mais. E talvez seja por isso que, desta vez, soa ainda mais gasto. Porque há demasiada gente cansada de ser tratada de forma paternalista.

Votar em quem acreditamos na primeira volta não é radicalismo. Radical é aceitar que nada pode mudar. Haja resignação e contra narrativa. Haja muitos votos na Catarina.

Eduardo Couto
Sobre o/a autor(a)

Eduardo Couto

Educador Social e ativista LGBTQIA+. Dirigente do Bloco de Esquerda
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