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Lampedusa, Alan Kurdi, Tragédia de Lesbos e tudo ficará na mesma

Ninguém abandona a sua casa e se aventura numa travessia que lhe pode custar a vida por capricho. Fazem-no porque não têm alternativa.

Amontoados, abandonados, longe da vista para melhor serem esquecidos, são às centenas de milhares atirados para vários campos de refugiados às portas da Europa. Fogem da guerra, da fome, da perseguição. Atravessam desertos, florestas e oceanos carregados apenas com o que cada corpo suporta em busca de uma vida melhor para si e para os seus. Homens, mulheres, crianças, idosos, jovens, sozinhos ou em família, são movidos pelo desespero e pela luta pela sobrevivência. Nos seus países, nas suas casas, a sentença é a miséria, tantas vezes a tortura e a morte. Por isso arriscam, avançam, pagam a traficantes, a informantes, desafiam todos os perigos em busca de algum tipo de refúgio.

O Mediterrâneo perdeu as contas às vidas que engoliu. Nem a tragédia de Lampedusa, nem as imagens de Alan Kurdi, o menino sírio de três anos encontrado morto numa praia da Turquia, nem os constantes naufrágios que provocam a morte a centenas de pessoas todos os meses são suficientes para que os responsáveis políticos da Europa e do mundo unam esforços concretos em busca de soluções reais.

Pelo contrário, para os que conseguem chegar às portas da Europa, o sonho de um futuro melhor e a réstia de esperança que ainda guardam esbarram nas fronteiras e rotas fechadas, nos muros e nas cercas que se erguem num ápice para deixar os indesejados do lado de fora. E nos campos de tendas e intermináveis amontoados de lixo.

É nestes campos sobrelotados que ficam “retidos” durante semanas que se transformam em meses e meses que se transformam em anos. Esperam a tão desejada autorização de entrada e a chance de um futuro. Do outro lado, na Europa, esperam que desistam e regressem aos locais de origem. É um jogo de resistência.

impera a hipocrisia de um mundo ocidental que, ao mesmo tempo que faz discursos de consternação pelas tragédias e pelos mortos, é agente desta crise migratória sem precedentes

Enquanto isso, nos campos de detenção sobrevive-se como se pode porque voltar para trás é aceitar a morte. Resistem ao frio e ao calor que as tendas não filtram, à falta de comida, água, eletricidade, à falta de cuidados de saúde e escolas para os milhares de crianças que crescem mais depressa do que as consciências de uma Europa fechada sobre si mesma. Faltam respostas e falta vontade política para pensar medidas ancoradas na cooperação, na solidariedade, no respeito pelos Direitos Humanos. Ao invés, impera a hipocrisia de um mundo ocidental que, ao mesmo tempo que faz discursos de consternação pelas tragédias e pelos mortos, é agente desta crise migratória sem precedentes. Ninguém abandona a sua casa e se aventura numa travessia que lhe pode custar a vida por capricho. Fazem-no porque não têm alternativa. Fogem das guerras financiadas pelos países do “primeiro mundo”, da exploração e da miséria provocada por um capitalismo sanguinário, das consequências devastadoras das alterações climáticas que os deixam sem meios de subsistência.

Campos como Lesbos, Samos, Quios, Vuciuk e mais 260 “zonas de transição”, “zonas de segurança” ou “hotspots” espalhados por vários países europeus são a resposta que a Europa tem para uma das maiores crises humanitárias da nossa era

Campos como Lesbos, Samos, Quios, Vuciuk e mais 260 “zonas de transição”, “zonas de segurança” ou “hotspots” espalhados por vários países europeus são a resposta que a Europa tem para uma das maiores crises humanitárias da nossa era.

O recente incêndio que devastou Lesbos, o maior campo de refugiados e que deixou milhares de pessoas a vaguear sem rumo pelas ruas podia ser entendido como um impulso para a mudança e para a necessidade urgente de agir. Sabemos que tudo vai ficar na mesma. Alguns países, entre os quais Portugal, vão receber alguns menores desacompanhados, as TVs e os jornais vão acompanhar o assunto durante dois ou três dias até que outro acontecimento lhes desvie a atenção. Num ápice surgirão mais tendas num qualquer outro espaço, mais famílias amontoadas, mais espera.

No centro de uma crise pandémica mundial, dentro dos campos o medo da fome é maior do que o medo do vírus e fora deles todos têm mais com que se preocupar do que com gente que já não vêem como seres humanos. Esta é seguramente uma das maiores falências da Humanidade.

Artigo publicado em “O Setubalense” a 14 setembro 2020

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda. Professora universitária. Socióloga.
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