A juventude em Portugal, no antigo regime, rompeu com a submissão escoltada da “mocidade portuguesa” e com a imposição de uma política castrante que concedia aos jovens rurais o desacato do roubo das galinhas no quintal do vizinho e aos urbanos a inquietude estudantil. Pós 25 de Abril viveu euforicamente a politização do país, tornando-se na “chama ardente da revolução”. Ultrapassou uma revivalista cultura pope submergiu no estereotipado alvoroço hippie com um rock socialmente reivindicativo. Agitou esferas partidárias, adotou estilos, indumentária e comportamentos dando movimento a movimentos representativos do ecletismo da sua vivência. O nosso país viu nascer um novo segmento geracional, ativo, eleitor, consumidor e produtor: os jovens. Presentes nas contestações a assumir a liderança reivindicativa, avessos à imposição conservadora e ao dever da tradição, filhos da democracia e nativos da liberdade. Com formação académica, habilitação profissional e sem emprego, esta geração de precários intelectuais que mensajae naveganuma realidade virtual, é hoje uma marca indelével das cidades estendendo-se como que uma mancha de óleo por uma conurbação suburbana.
Mas uma outra juventude arquitetou-se nas franjas do poder. Encurralada na ambição do imediato, guindada pela fidelidade partidária, seguidista da lógica do aparelho, submissa ao chefe e isenta de vontades, faz da avidez do cargo o desígnio do objetivo. Vivem na selva salvando-se como podem, espezinham todos quantos os que sejam obstáculo ou adversário, aprendem com os Grandesa eliminar os contrários, a renunciar aos valores e a jogar no tabuleiro das conveniências. Vivem na transitoriedade à procura da oportunidade. São os Jotas.
Esta linhagem partidária afeta ao poder, ultimamente tem dado provas da sua defunta vitalidade. Primeiro foi a excelsa cartada dos jotas CDS/PP que levam a Congresso, porventura para ver se engalanavam a entronização do “Querido Líder”, uma proposta de redução da escolaridade obrigatória em esta passava dos atuais 12 anos para os anteriores 9. Visão de mestre reacionário à boa maneira salazarenta – quanto mais ignorantes mais fáceis de dominar. A escola é para as elites sociais, o povo alfabetiza-se socialmente, é ensinado a respeitar e vai trabalhar – mesmo que não tenha em quê.
Agora foi a vez dos jotas PSD tirarem da cartola o agrado ao Coelho. Numa ardilosa golpada política emprenhada pelos Grandese adotada pelos Garotos, foi aprovado em parlamento o absurdo referendo da coadoção reabrindo uma discussão já tida e aprovada por larga maioria, na generalidade, nesse mesmo parlamento e com os mesmos deputados. Em democracia é lícito discutir e defender todas as matérias, desde que estejam salvaguardados direitos humanos, princípios de igualdade e liberdades.
Neste caso não é o caso. Estamos a falar de crianças a quem lhes é negado o direito de pertença familiar e a quem não se concede o vínculo legal com uma das partes da família com quem vivem. Estamos a falar de pais a quem lhes é vedada a imprescindível tranquilidade do bem-estar familiar e a quem não lhes é permitido fazer opções de custódia. Estamos a falar de pessoas que querem viver com a dignidade de serem pessoas no pleno reconhecimento das opções que responsavelmente querem ter.
Politicamente nojenta e culturalmente vergonhosa, esta viciosa proposta, vinda de um quadrante político que sempre reclama os valores da família – só que é do tipo “casta pura” do vintage tradicional, confirma também como estes Jotas são arcaicos. Jovens homofóbicos e preconceituosos, conservadores e moralistas dos “bons” costumes, discriminatórios nas atitudes e intolerantes nos valores.
Os jovens enquanto principiantes da participação cívica, não têm que copiar modelos e adquirir vícios dos Grandes. Reservasse-lhes o direito de tomar a vida nas suas mãos.
Os jovens devem fazer parte dos processos de discussão e decisão, rejeitando a ideologia do conformismo e os princípios do arcaísmo. Os jovens são o motor da mudança por uma sociedade aberta à diferença, plural de opiniões e inclusiva de opções, que seja capaz de confrontar os direitos com as responsabilidades, as vontades com as possibilidades, a liberdade com a exigência.
Um país justo e democrático não pode fazer perdurar leis indignas e injustas. Vergonha e indignação é o que sinto por estes hipócritas e arcaicos jovens partidários.
Artigo publicado no "Jornal de Barcelos" a 22 de janeiro de 2014