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José Vieira, o cineasta militante das migrações e da interioridade

José Vieira assume que começou a filmar documentários por militância, sem formação teórica, aprendendo no terreno, com os erros.
José Vieira

O Cine Clube de Viseu (CCV) acabou de realizar, de 29 de outubro a 2 de novembro, mais uma edição do Vista Curta, o festival que é já incontornável no mapa das competições nacionais (e locais) de curtas metragens. Este ano, o realizador homenageado foi José Vieira, nascido em Oliveira de Frades, que aos sete anos de idade acompanhou os pais na sua emigração para França, em 1965, fazendo parte da vaga de 1.400.000 portugueses que naquela década saíram do Portugal do ditador e criminoso Salazar para fugirem à miséria, à fome e à guerra colonial. Três milhões de portugueses emigraram, durante décadas, para vários países da Europa (França, Inglaterra, Alemanha, Bélgica, Suíça, Luxemburgo e outros). Só para França, numa década, emigraram 800 mil, a maior parte clandestinamente.

O filme “A Fotografia Rasgada”, um dos quatro filmes de José Vieira exibidos pelo CCV, mostra precisamente o drama da emigração “a salto”, em que o imigrante tinha de pagar a um “passador” para cruzar a fronteira sem ser apanhado pela PIDE, a GNR, a Guarda Fiscal ou pelos “carabineros”(Guardia Civil) da ditadura sanguinária de Franco, sendo uma parte do dinheiro entregue no início da viagem e o restante por um familiar que receberia uma carta do emigrante a confirmar que chegara ao destino, com metade de uma fotografia sua, rasgada, que seria colada à outra metade que ficara em seu poder. Muitos emigrantes não resistiram ao frio e à neve na travessia a pé dos Pirinéus, que chegava a durar uma semana, ou morriam afogados nos rios. Sina comparável à dos migrantes afegãos, chineses e outros que morrem congelados em camiões frigoríficos ou asfixiados nos contentores ao atravessarem clandestinamente o Canal da Mancha ou à dos africanos afogados no Mediterrâneo, vítimas da xenofobia, do racismo e da criminosa hipocrisia da Europa.

José Vieira assume que começou a filmar documentários por militância, sem formação teórica, aprendendo no terreno, com os erros. “Impulsionado pelas transformações políticas em Portugal e pela pertença a movimentos de solidariedade com os imigrantes, realiza cerca de 30 documentários para a France 2, France 3, Cinquième e Arte, traçando o retrato da imigração em França com base na sua experiência pessoal e nas histórias individuais que foi conhecendo”, informa o CCV.

Essa condição militante está bem presente no filme “Souvenirs d’un Futur Radieux”, cruzamento de duas realidades distantes no tempo (40 anos), mas no mesmo espaço: o “bidonville” (bairro da lata) onde ele próprio viveu durante cinco anos, nos arredores de Paris, e outro bairro de lata, recente (o filme é de 2014),construído por ciganos romenos. A mesma miséria, a mesma lama, a mesma resiliência para aguentar a discriminação e o racismo, mais ou menos declarado, para conseguir trabalho e ter uma vida melhor do que a do país de origem. Uma montagem genial de José Vieira que nos mostra fotografias e testemunhos de portugueses cruzados com imagens e relatos dos romenos, ao ponto de a certa altura o espectador se perder e já não saber quem é quem.

Recordei-me, então, do incêndio provocado na “Cité des Francs Moisins”, em St. Denis, nos subúrbios de Paris, em 1978, habitado por 33 famílias, das quais 29 portuguesas que perderam tudo o que tinham em casa. Dois dias depois, à mesma hora, novo incêndio no prédio ao lado, tendo havido provas de fogo posto. Na noite seguinte, novo atentado, desta vez com gasolina, mas os bombeiros e a polícia já estavam a postos. Dez anos antes, também o “bidonville” de S. Denis, ardeu completamente, a anteceder o processo de expulsão de migrantes das barracas para os realojar nas “Cités” de Transit”, construídas com placas de latão e com paredes de isorel e fibra de vidro por dentro, materiais que os faziam parecer barracas de lata com quatro andares, facilmente inflamáveis e sem condições de segurança. Ainda conservo exemplares da “Tribuna do Emigrante”, o jornal da FATE – Federação das Associações dos Trabalhadores Emigrantes na Europa, sediada em Paris, onde se dava voz a emigrantes portugueses vítimas destes atos racistas, como um dos moradores que desabafou: “Para eles nós somos como ratos!”

Também Macron, hoje, na esteira de Sarkozy e Hollande, trata como ratos os imigrantes indocumentados e requerentes de asilo que quer desalojar, restringir-lhes o acesso à Saúde e expulsar, enquanto anuncia facilitar a entrada na França de técnicos estrangeiros, para gáudio da extrema-direita que, não contente, exige medidas ainda mais racistas e xenófobas.

“O que mudou” – diz José Vieira – “é que há milhões de pessoas em situações indeterminadas, sem estatuto, sem país de acolhimento, num movimento suspenso que dura indefinidamente, sem conseguir chegar a alguma parte. O que mudou é que estamos a assistir ao naufrágio da Europa: milhares de mortos no mar Mediterrâneo, milhares de pessoas humilhadas cada dia, presos em centos de retenção.”

Os filmes de José Vieira desmitificam o emigrante que alcança o sucesso e regressa ao torrão natal para gozar a reforma na casa que construiu com o sacrifício de muitos anos de trabalho, muitas horas extraordinárias e privações. Na realidade, diz, “o regresso é para eles uma casa vazia numa aldeia deserta”. Por isso, muitos ficam no país de acolhimento, de onde os filhos já não querem sair, nem tão pouco as mulheres, com receio de reencontrar aqui as relações de submissão de antes da partida para França. “Viajam entre dois universos, entre o mundo rural e o urbano, entre duas línguas. Incorrigíveis, continuam a navegar entre os seus sonhos de emigrantes e a realidade da imigração”. E fala ainda de “os insubmissos e os náufragos da imigração”: aqueles que partiram para se libertarem da miséria do campo, mas que “se recusaram a dobrar-se aos ritmos do trabalho “forçado” da fábrica, à barraca do bidonville, à exploração da sua ignorância e precariedade. As suas recordações da França são uma imensa depressão”. Claro que, de um modo geral, “a emigração é um gesto de emancipação”, reconhece o cineasta. Muitos emigrantes superaram a pobreza e descobriram, em contacto com os trabalhadores franceses, alemães e outros, os direitos laborais e sociais que aqui só chegaram com o 25 de Abril, passando a desenvolver uma consciência de classe proletária.

José Vieira filma também o interior do nosso país que continua a desaparecer. Uma mulher de Adsamo desabafa: “Todos desistiram… a povoação desistiu!” No filme “O Pão que o Diabo Amassou”, os já raros habitantes desta aldeia no alto da serra do Caramulo, alguns já falecidos, mostram-nos a beleza dos seus cantos polifónicos, a dureza da vida dos “ratinhos” que iam para o Alentejo, trabalhar de sol a sol, a troco de umas intragáveis migas aguadas. Outros migraram para o Barreiro para trabalhar na CUF, e vieram de lá com os pulmões destruídos pelos gases e os químicos, morrendo prematuramente.

Um dos raros habitantes que ali resistem, qual sósia de Agostinho da Silva na fisionomia e na filosofia de vida, diz para um outro idoso: “A terra é a melhor arte do mundo!”A gente vai quando quer, vem quando quer. Não anda a cumprir horário. O homem que não cumpre horário é o mais importante do mundo. Essa é que é a melhor vida. Não é o que anda a ganhar um tostãozito a cumprir um horário. Isso é uma vida desgraçada. Agora cumprir horário… foda-se o horário!” Agostinho da Silva dizia de outro modo: “O homem não nasceu para trabalhar, mas para criar!” E tal como os camponeses que se sacrificam a trabalhar de sol a sol, mas sem picar o ponto a horas certas, quem trabalha no que gosta, não cansa.

Mais uma vez, José Vieira deslumbra-nos com enquadramentos inesquecíveis, como o do arcaico carro de bois ao lado de um camponês trabalhando, enquanto na estrada ao fundo correm os bólides em competição na rampa do Caramulo. O curso de Sociologia talvez tenha ajudado na abordagem das personagens que entrevista, como o daquele camponês a almoçar com a família que, perante uma pergunta do realizador sobre as suas memórias da guerra colonial, lá acaba por ultrapassar a resistência do trauma e desabafar, entreabrindo o pano sobre as atrocidades em que fora compelido a participar.

José Vieira continua a filmar o interior de Portugal, as aldeias desertificadas (“todas as aldeias do interior onde filmei estão a desaparecer. Já filmei em Trás-os-Montes e é pior do que aqui, em Viseu, porque foi tudo embora”, disse à Lusa) e dedica-se a investigar sobre os baldios, “uma realidade que só existe em Portugal”, para o seu próximo filme que conta apresentar ao público em 2020. Ficamos à espera.

Sobre o/a autor(a)

Ativista associativo na defesa dos Direitos Humanos. Militante do Bloco de Esquerda
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