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José Mattoso e a sua crítica à incultura histórica em Portugal

José Mattoso foi o primeiro português distinguido com o Prémio Pessoa, em 1987. Para além de ter recebido o Prémio Böhnus-Szögyény de Genealogia 1991, o Troféu Latino 2007 e ter sido condecorado pelo Estado português com o grau de Grande Oficial da Ordem de Sant'Iago da Espada.

Dediquei o meu último artigo de opinião no Esquerda.net ao Prémio Europeu do Património Cultural “Europa Nostra 2023”, na categoria “Campeões do Património”, atribuído, no passado dia 13 de Junho, ao historiador e arqueólogo Cláudio Torres. Lamento ter de escrever, agora, sobre a morte de outro grande historiador, José Mattoso, o nosso maior medievalista, falecido no passado dia 8 de Julho, com 90 anos de idade.

A ligação entre estes dois historiadores, dos maiores de sempre, pode ver-se não só pela colaboração entre ambos, nomeadamente a autoria de Cláudio Torres do capítulo “O Garb-al-Andaluz” da História de Portugal, em 8 volumes, dirigida por José Mattoso (Círculo de Leitores), como pelo facto de Mattoso, confrontado, há vários anos, com a doença de Parkinson, ter doado a sua propriedade, a Horta da Malhadinha, na margem esquerda do Guadiana, e o seu espólio, incluíndo a sua biblioteca pessoal, ao Campo Arqueológico de Mértola, fundado e dirigido por Cláudio Torres. Mattoso considerava que Cláudio e Borges Coelho “mostraram que era uma visão muito unilateral [a da época nacionalista do Estado Novo] que “a troco de uma ideia mais ou menos colonialista do Alentejo” achava que “o Sul era terra de mouros”, esquecendo o papel que tiveram os muçulmanos que “nos 500 anos em território português, muita influência terão deixado”, lamentando o atraso académico no estudo da herança árabe, em comparação com a Espanha (entrevista a João Céu e Silva no DN de 3.04.2010).

José Mattoso foi o primeiro português distinguido com o Prémio Pessoa, em 1987, também atribuído a Cláudio Torres, em 1991. Para além de ter recebido o Prémio Böhnus-Szögyény de Genealogia 1991, o Troféu Latino 2007 e ter sido condecorado pelo Estado português com o grau de Grande Oficial da Ordem de Sant'Iago da Espada. Tal como Cláudio Torres, também José Mattoso aderiu ao Bloco de Esquerda aquando da sua fundação, em 1999, considerando-o “uma esperança para os próximos tempos”, como escreveu num artigo de opinião no jornal Público, em 21.08.1999. Em 2015 foi mandatário nacional do Livre (Rui Tavares foi seu aluno na Universidade Nova de Lisboa).

Após ter estado 20 anos como monge beneditino na Abadia de Singeverga, Santo Tirso,onde sentiu que as responsabilidades pastorais lhe retiravam tempo para a contemplação, de acordo com o ideal monástico medieval de Cluny e Cister, retomou a vida secular, em 1970, casou e teve três filhos. Como presidente da Torre do Tombo teve um papel fundamental na organização, modernização e internacionalização dos Arquivos Nacionais. Foi para Timor Leste com a sua mulher, como voluntários, onde ficaram cinco anos a leccionar e, a convite de Xanana Gusmão, organizou documentos, como os do guerrilheiro Konis Santana, morto em combate, génese do Arquivo e Museu da Resistência Timorense, em Dili, e da obra que escreveu “A Dignidade: Konis Santana e a Resistência Timorense”.

Embora a sua obra mais conhecida seja a monumental História de Portugal, que dirigiu em colaboração, a obra que mais o referencia, dentre as mais de 30 que escreveu, é “Identificação de um País. Ensaio sobre as origens de Portugal 1096-1325”, em dois volumes, uma grande síntese do Portugal medieval, a partir da Geografia Humana, da Linguística e da Antropologia, mudando o foco da análise histórica numa perspectiva nacional para a perspectiva do poder local feudal e comunitário, ou seja, da sociedade senhorial e feudal, entre Douro e Minho, em “oposição”, no restante território, aos concelhos (ou “governo comunal”, herdado do Código Visigótico e dos regulamentos muçulmanos, segundo António Borges Coelho em “Comunas ou Concelhos” , Ed. Caminho, 1986).

Igualmente fundamental para a compreensão de Portugal, dos portugueses e do seu heterogéneo território, é a obra “Portugal - O Sabor da Terra”, um retrato histórico e geográfico por regiões, escrito a meias com Suzanne Daveau (geógrafa franco-portuguesa, herdeira da escola de Orlando Ribeiro, com quem foi casada), em co-autoria com Duarte Belo, grande e incansável fotógrafo da paisagem e do património construído.

“Mais do que exaltar a Pátria, interessa-me o relacionamento dos portugueses uns com os outros” (entrevista à Lusa). Daí a crítica de Mattoso à “mediania da qual não conseguimos saír” que permanece em Portugal considerando que “a razão é principalmente cultural”, mais do que de ordem económica ou social. “Os 40 anos do regime salazarista basearam-se muito num culto da mediocridade e de submissão, de passividade e de paternalismo estatal, só que já lá vai muito tempo e tínhamos tido tempo e obrigaçao de ter um país com uma cultura mais desenvolvida. É lamentável que com o ensino obrigatório estendido a crianças que foram educadas com um nível superior não tenham melhorado culturalmente”.

Sobre os “Descobrimentos”, Mattoso também é demolidor: “Não devemos ter uma concepção dessa época como uma epopeia nem aceitar a tradução literária que dela fez Camões. O que houve foi um dia-a-dia de lutas e de grandes ousadias mas também de miséria, sofrimento e dificuldade. (…) A epopeia foi muito sofrida e houve muitos portugueses que nada ganharam com os Descobrimentos e bastantes os que deles beneficiaram sem usarem bem os rendimentos”. Sobre os anos de democracia, lamenta “a enorme diferença entre ricos e pobres! Parece haver uma dificuldade na redistribuição e rentabilização dos recursos e existe um fosso excessivamente grande para o que deveria ser a nossa realidade e que se traduz na grande dificuldade de as classes mais pobres acederem à cultura”.

Sobre o nascimento da Nação, diz Mattoso, na entrevista ao DN que tenho vindo a citar: “No tempo dos fascismos e nacionalismos tinha-se uma ideia romântica do carácter étnico dos povos e tentava-se recuperar um espírito comum e nacional. Com o fim dos nacionalismos e o triunfo da democracia, percebe-se que eram mitos sem fundamento e que as nacionalidades não são por norma o produto de espíritos colectivos, mas sim de formações políticas que se constituem como poder e o defendem sobre um território ao longo de muitos anos. (…) Em Portugal é nítido que o Estado como poder real precede a nação porque os súbditos de Afonso Henriques eram tão diferentes que quem os agrega é o poder político e não afinidades étnicas”.

O jornalista do DN pergunta-lhe: “Quando investigou Afonso Henriques, criou a dúvida sobre se o seu nascimento acontecera mesmo em Guimarães ou Viseu”. Mattoso: “Não fiz uma investigação pessoal, antes aceitei a tese do historiador Almeida Fernandes e limitei-me a dizer que seria a tese mais segura. No entanto, acabei por concluir que não era tão segura como pensava e considero que é necessário voltar a examinar a questão se ela nos interessar mesmo. Dei essa opinião na biografia sobre Afonso Henriques sem pensar que iria constituir uma base para uma polémica e quando realizaram o congresso invocaram a minha opinião. Parece-me, no entanto, que esta polémica sobre a terra onde o rei nasceu é excessiva, porque questiono: qual é a importância exacta sobre se a terra natal do nascimento do rei é Guimarães ou Viseu? Do ponto de vista histórico não é praticamente nenhum, porque o rei naõ fez a sua vida em nenhum desses lugares, mas em Coimbra e a partir desta cidade.” E conclui: “[a] rivalidade paroquial entre duas cidades (…) é uma espécie de manifestação de incultura histórica”.

No entanto, em Viseu, houve logo quem tivesse defendido que se deveria retirar dos livros escolares a expressão “Guimarães, berço da Pátria!”, substituíndo-a por “Viseu, berço da Pátria!” O sábio Mattoso rematou: “Ninguém nasce no berço!” Genial!

Sobre o/a autor(a)

Ativista associativo na defesa dos Direitos Humanos. Militante do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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