“Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade”

porLuís Monteiro

07 de julho 2024 - 12:09
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A transformação da agência noticiosa argentina numa empresa de publicidade argentina é um alarme para a liberdade de imprensa em todo o mundo.

O que se vive na Argentina de Javier Milei não é uma distopia. Está em curso uma revanche política a nível mundial onde a burguesia internacional aposta em novos cavalos de corrida para acelerar como nunca a concentração de capital. Nunca, na História da Humanidade, tão poucos controlaram tanta riqueza e tantos recursos. Esta avalanche autoritária (continuação de uma globalização sempre à força) implica um agravamento das condições da vida coletiva da maioria do povo, desde logo com a subtração de direitos fundamentais, como a liberdade de opinião e de informação. Esta semana, tomámos conhecimento do Decreto 548/2024 do governo argentino que transforma a agência noticiosa pública estatal numa empresa de publicidade. Para Milei, o direito à informação atrapalha a governação.

A extrema-direita contemporânea combina, por um lado, um projeto ultraconservador nos costumes, no qual o retrocesso de direitos civis e o ataque às mulheres e às minorias sociais é a agenda predominante e, por outro lado, um projeto ultraliberal, onde se tenta destruir os últimos resquícios do papel do Estado na economia. Ao contrário da propaganda liberal, esta ideologia nunca quis diminuir o papel do Estado na vida dos cidadãos, antes pelo contrário. Sempre precisaram da máquina estatal ao serviço do seu projeto, nomeadamente com a atuação musculada da polícia para a contenção da reação e protesto populares, com um quadro legal que permita a desregulação económica e imponha uma moral social, fora e dentro de casa e escancare as portas dos recursos públicos aos abutres privados. A história da América Latina é disso exemplo: a colonização portuguesa e espanhola foram sendo substituídas por novas colonizações, desde logo por parte dos Estados Unidos da América. Essas veias abertas, como nos narra Eduardo Galeano, são o retrato de um continente saqueado constantemente, privando os seus povos do usufruto dos recursos das suas terras e do esforço do seu trabalho.

A transformação da agência noticiosa argentina numa empresa de publicidade argentina é um alarme para a liberdade de imprensa em todo o mundo. A estratégia da extrema-direita tem sido esta: invadir a opinião pública com a narrativa manipulada de que são alvo de censura por parte do “politicamente correto” e da “cultura woke” que quer calar quem pensa diferente. Com isso, aumentou substancialmente o número de comentadores e cronistas de extrema-direita, que usam o seu tempo de antena para pôr em causa Direitos Humanos, insultar, humilhar os mais frágeis da sociedade e espalhar mensagens de ódio. Os órgãos de imprensa - desde os que estão claramente alinhados com a extrema-direita até aos que tentam manter algum critério de isenção - entenderam por bem incorporar os destiladores de ódio em nome da liberdade de expressão. Já estamos a colher os frutos dessas escolhas. O jornalismo é a primeira grande vítima.

Os novos cavaleiros da liberdade de expressão, na primeira oportunidade, usaram todos os meios ao seu dispor para controlar a informação e o jornalismo livre. O cenário dantesco que os argentinos vivem, com assistência internacional, são um punhado de lições para um verdadeiro manual de sobrevivência do jornalismo livre e independente. Por cá, diminui-se a pluralidade do comentário político nos jornais ditos de referência, mesmo contra a vontade dos leitores. Estreitam-se interpretações da realidade e silenciam-se visões alternativas do mundo. Seja em papel ou pela televisão, chega-nos cada vez mais opinião processada e menos informação verificada. Em nome de uma estranha leitura sobre o que é liberdade de expressão e do palco que os soldados de Milei, Bolsonaro, Trump, Meloni, Ventura reivindicam no espaço público, a comunicação social “adapta-se” aos novos tempos da famigerada “polarização”. Será que ainda não entenderam o beco sem saída onde se meteram? Hoje foi Milei na Argentina, amanhã alguém igual lhes bate à porta.

Luís Monteiro
Sobre o/a autor(a)

Luís Monteiro

Museólogo. Investigador no Centro de Estudos Transdisciplinares “Cultura, Espaço e Memória”, Universidade do Porto
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