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Jornada Mundial da Juventude (Católica) – Qual é o problema?

A JMJ 2023 só tem um problema: é que, ao contrário das JMJ em Espanha, onde os contribuintes não pagaram nada, em Portugal, o custo para o Estado e as autarquias envolvidas já vai em 80 milhões (tanto como o que a Igreja diz ter gasto).

“A Igreja está a tornar-se para muitos no principal obstáculo à fé. Nela não conseguem ver mais do que a ambição humana pelo poder.” - Joseph Ratzinger, 1977 (futuro Papa Bento XVI)

“É melhor ser ateu do que católico hipócrita” - Papa Francisco

Não me incomoda nada que milhares de jovens aproveitem um evento religioso para viajar em grupo, para conhecerem outros países e jovens de outras partes do mundo.  E se muitos o fazem por devoção, para outros será apenas um pretexto para partirem à aventura, uma oportunidade única para escaparem ao controlo da família. Da mesma forma que tenho amigos sem religião que já fizeram os Caminhos de Santiago, por pura aventura. Quando eu tinha 14 ou 15 anos, comecei a organizar a ida para um campo de trabalho em Inglaterra, mas os meus pais não me deixaram ir, por acharem que era muito novo para viajar sozinho. Se calhar, se fosse acompanhado por um padre talvez me tivessem deixado ir. Na altura já havia abusos de menores por parte de padres, mas a pedofilia ainda era assunto tabu. Foi por essa idade que deixei de ser católico, graças aos três cónegos que me calharam nas aulas de Religião e Moral. Um, com ar de choninhas, era pedófilo e foi transferido da paróquia por  ter abusado de uma menina de 12 anos. Ao segundo, com quem tive alguns debates teológicos, até lhe agradeci as muitas aulas passadas a ouvir discos de música clássica, mas como“coordenador” do jornal da Escola Comercial e Industrial, censurou tantos artigos que assumi a responsabilidade por uma edição clandestina com os artigos censurados, pelo que fui ameaçado de expulsão. O terceiro cónego tinha um prazer sádico em humilhar os alunos. Suspeito que também trataria assim os jovens internados no asilo de que foi director. 

Com estas três vacinas fiquei imune a crenças religiosas. A primeira revelação foi a de que “se deus existe, não tem religião”. Nada de original, porque ouvi isso mesmo, recentemente, da boca de Frei Fernando Ventura. A simples ideia de deus (porque não deusa ou deuses?) afigurou-se-me sem sentido num Universo sem princípio, nem fim. Muito menos a ideia de um “deus pai”, sexuado e castigador. Procuro estudar todas as religiões, para conhecer as culturas e sociedades que sofrem a sua influência, mas apenas respeito as pessoas, independentemente das suas opções ideológicas e religiosas.

Como dizia Bertrand Russell, em “Porque Não Sou Cristão”, até as doutrinas políticas [emancipadoras da humanidade] como o comunismo, podem ser tão nefastas como são todas as religiões, se forem dogmáticas. Por isso é que, digo eu, também se praticaram crimes em seu nome. Já alertava Engels: “o Marxismo não é um dogma, mas um guia para a acção!” Um dia, um jovem perguntou-me se ainda fazia sentido a distinção entre esquerda e direita. Respondi que sim, mas, para mim, ser de esquerda era estar ao lado do povo, tal como, no século XVIII, os membros do “Terceiro Estado” (trabalhadores e burguesia), na Assembleia Nacional francesa, em oposição aos partidários do rei (as classes parasitas, nobreza e clero), sentados à sua direita, e, claro, não lixar o próximo, defendendo sempre a igualdade e a liberdade. Mas admiti que outros, por circunstâncias culturais, pudessem defender o mesmo, sendo católicos ou de direita. Sou ateu praticante, mas admiro alguns padres, como o padre Max, assassinado à bomba pelos bombistas da extrema-direita, do MDLP, amigos do cónego Melo, de Braga, por ser candidato da UDP em Vila Real; ou o Bispo do Porto, António Ferreira Gomes que escreveu a Salazar denunciando a miséria em que vivia o povo; ou Frei Fernão de Oliveira que denunciou toda a escravatura, de negros e índios, cem anos antes das denúncias tardias e parciais do Padre Vieira e de Bartolomé de Las Casas; ou Frei Bento Domingues que defendeu a descriminalização do aborto, tal como o padre Augusto da Costa Pinto, falecido em 2018, com 90 anos, que escreveu o livro “O Casamento dos Padres”, apreendido pela PIDE, e publicou, em 2009, uma extensa Carta Aberta aos irmãos Bispos, Sacerdotes, Diáconos e demais Fiéis da Igreja Católica, Apostólica, Romano-Cristã, que vive em Portugal, acerca do voto “sim”, por ocasião do Referendo Civil”. Foi também autor do livro “A Fragilidade do Nó Cego – O casamento na Igreja Católico-Romana, o Divórcio e o Segundo Casamento”, em 2012. Além de ter sido um entusiasta mandatário da candidatura do BE às legislativas de 2009,  pelo círculo de Viseu, encabeçada pelo ex-mineiro da Urgeiriça e ambientalista, António Minhoto.   E ainda o padre Mário de Oliveira que denunciou Fátima como um “Foco de Alienação ao serviço do Anticomunismo” e “as aparições” inventadas pelo clero de Ourém como “reacção à instauração da República”, transformadas numa “máquina de fazer dinheiro” com o turismo religioso. Também o padre e teólogo Anselmo Borges já afirmou que a “nossa senhora” não caiu do céu em cima de uma azinheira, e que tudo não passou de uma “visão” e não de uma “aparição”.  Quem tiver dúvidas sobre a charlatanice de Fátima, basta ler as descrições das profecias da “Virgem”, escritas por Lúcia, em 1941, com a visão horrífica dos demónios e almas a arder no Inferno, lugar que João Paulo II e Francisco negaram existir.

Apenas quatro séculos depois de Cristo, as fraternas comunidades cristãs primitivas transformaram-se numa seita fanática que demoliu e vandalizou obras de arte, templos e bibliotecas, como a de Alexandria, a maior do mundo antigo, com 700 mil livros. Instituída como religião do império romano, nunca mais parou de cometer barbaridades, sempre ao lado dos poderosos, como as Cruzadas, não só contra o Islão, mas também contra os cristãos considerados “heréticos”, perseguidos, os bens confiscados, presos, torturados e queimados (pelo braço secular/Estado ao serviço da Inquisição), como fizeram com os conversos judeus e muçulmanos e mulheres livres (“feiticeiras”). Mais recentemente, a Igreja Católica esteve ao lado de ditadores criminosos como Salazar (elogiado por Pio XII), Franco, Videla, Pinochet e outros. Houve católicos de base e clérigos que não seguiram a hierarquia e resistiram às ditaduras, mas foram excepções.

A História dos papas é uma longa sequência de envenenamentos, parricídios, adultérios, incestos, guerras, corrupção e assassinatos. Uma instituição anacrónica que continua a chamar “Príncipes da Igreja” aos purpurados cardeais, como se ainda vivêssemos na Idade Média.

É por isso que os cidadãos portugueses, crentes e não crentes, não podem deixar de exigir a efectiva separação entre o Estado laico e as igrejas e a revogação da Concordata que fere a laicidade constitucional e mantém privilégios fiscais e outros à Igreja Católica. Embora representem 80% da população, o número de católicos em Portugal tem vindo a baixar, e quase metade declara-se “não praticante”. Já os portugueses sem religião aumentaram de 6,84% em 2011, para 14,09% no Censos de 2021. Hoje, com a divulgação do relatório sobre os crimes de abusos sexuais que vitimaram 4.800 crianças, por parte de clérigos pedófilos, é quase certo que esses números seriam outros. A propósito, é lamentável que o Igreja Católica tenha abandonado a ideia de construção de um memorial às vítimas dos abusos sexuais, durante a JMJ.

 

O primeiro papa latino-americano, e o primeiro não europeu há mais de 1.200 anos, está a fazer um grande esforço para o “aggiornamento” do Vaticano e da Igreja Católica, mas os seus detractores dentro da Cúria já o acusam de ser comunista. Também Cristo foi acusado de subversivo por expulsar os vendilhões do templo e defender a igualdade. Francisco caracterizou o Capitalismo de “economia que mata” e a crise dos migrantes na Europa como a ponta do iceberg de um “sistema mau e injusto”, alertando para a “globalização da indiferença”; relativizou o direito à propriedade privada: “se alguém não tem o necessário para viver com dignidade, é porque outrém se está a apropriar do que lhe é devido!”; defende publicamente os transexuais e casais do mesmo sexo, as mulheres que abortaram (embora continue a condenar o aborto); quer desclericalizar a Igreja, dar mais espaço às mulheres e aos leigos e reformar o Banco do Vaticano (espero que não tenha o fim de João Paulo I). Mas não se vislumbra abertura para a ordenação de mulheres e de homens casados e o acolhimento de casais divorciados. Uma instituição anquilosada por dois mil anos de usos e abusos de um poder quase universal, não é fácil de reformar.  Francisco tem pela frente um caminho cheio de pedras e calhaus e não faltará, no Vaticano, quem o queira lapidar. Um meu ex-colega de escola que se doutorou em História já como frade, diz que não gosta nada de Francisco por ele querer fazer “uma revolução na Igreja”. Por outro lado, um meu amigo, desertor do Seminário, diz que Francisco está muito aquém de um João XXIII, ficando-se pelas boas intenções.

 

A JMJ 2023 só tem um problema: é que, ao contrário das JMJ em Espanha, onde os contribuintes não pagaram nada, em Portugal, o custo para o Estado e as autarquias envolvidas já vai em 80 milhões (tanto como o que a Igreja diz ter gasto) com a maioria (93%) dos contratos a serem feitos por ajuste directo, sem concurso público, por falta de planeamento atempado e com a anuência do Estado. A Câmara de Lisboa gastou mais de 40 milhões, tanto como o que gasta em quatro anos para reabilitar bairros municipais.

Sobre o/a autor(a)

Ativista associativo na defesa dos Direitos Humanos. Militante do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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