Quando Lincoln foi eleito, beneficiou da divisão entre dois candidatos democratas num sistema bipartidário cuja estrutura é comparável à atual, apesar de os partidos terem mudado profundamente. O seu partido republicano era o defensor do fim da escravatura (se bem que Lincoln, como uma parte dos republicanos, propusesse que os negros regressassem a África), tal como os democratas do norte, ligados à indústria nas grandes cidades. Mas os democratas do sul eram os proprietários esclavagistas, opunham-se ao fim desse sistema e, por isso, apresentaram o seu candidato presidencial. Vencedor da guerra civil graças à superioridade em população e de capacidade técnica e apesar de vários desastres militares — as tropas sulistas chegaram a poucos quilómetros da Casa Branca — Lincoln acabou por ceder à esquerda do seu partido, proclamando não só a libertação como a cidadania dos escravos. O que implicou o seu direito de voto, que foi disputado pelos cem anos seguintes. Em todo o caso, o partido republicano era o partido da liberdade, enquanto os democratas do sul eram os herdeiros dos esclavagistas. Esta evolução é contada em detalhe no grande livro sobre a história dos EUA, “These Truths”, de Jill Lepore.
No século seguinte, a grande crise financeira de 1929 fez dos democratas o partido da recuperação económica e da organização sindical e, mesmo que divididos, o partido dos direitos civis. No entanto, havia ainda entre os republicanos aliados para essas causas e, por exemplo na questão da igualdade de direitos das mulheres e dos direitos reprodutivos, a separação bipartidária não impediu Reagan de assinar a lei do aborto na Califórnia e muitos dos seus candidatos de serem pró-escolha. Tudo mudou e, a partir do final da década de 80, completou-se o impulso que veio dar origem às novas ambições imperiais de Bush, o “século americano” com a ocupação militar do Médio Oriente e o controlo do petróleo, e depois de Trump, com um liberalismo couraçado de autoritarismo numa ecologia de ódios. Este sistema constituiu a extrema-direita mais perigosa do mundo.
O pilar da arma
Há poucos dias, três crianças e três adultos foram assassinados por um homem com uma arma automática numa escola cristã de Nashville. Dois deputados que participaram numa manifestação pelo controlo das armas foram expulsos da câmara estadual (eram negros, a terceira acusada pela mesma razão, sendo branca, não foi expulsa). No Texas, depois do assassínio de 19 crianças e dois professores numa escola, as autoridades recusaram-se a limitar o acesso a armas. A Florida aprovou uma nova lei facilitando o porte em público de qualquer arma, se ocultada. O Tennessee reduziu de 21 para 18 anos a possibilidade de comprar armas sem licença. No país há 390 milhões de armas nas mãos de civis, entre uma população de 330 milhões incluindo crianças, e as armas automáticas só são proibidas em três estados e autorizadas sem limitação em 37. Há mais mortes de crianças por bala do que as envolvidas em acidentes de automóvel e este ano já ocorreram em média duas chacinas por dia (sendo legalmente definidas como o ataque armado que provoca quatro ou mais mortos).
Perante as chacinas nas escolas, o consenso entre os republicanos é que se deve rezar pelas vítimas, propor aos professores que levem armas para a sala de aula e recusar qualquer limitação ao direito de usar espingardas-metralhadoras
Apesar disso, o consenso entre os republicanos é que se deve rezar pelas vítimas, propor aos professores que levem armas para a sala de aula e recusar qualquer limitação ao direito de usar espingardas-metralhadoras. Tucker Carlson, um dos gurus do trumpismo no canal da Fox, anuncia uma guerra civil se for aprovada alguma limitação de armas. Marjorie Taylor Greene, congressista da ala republicana do QAnon, tuíta que os democratas “querem a guerra civil”. O senador Paul Rand exige que seja preso o magistrado que acusou Trump. O tom belicoso parece piada, mas é melhor levar a sério o crescendo discursivo que conforma a bolha republicana, em que a maioria dos eleitores ainda acredita que as eleições são roubadas e que há uma missão divina de que Trump foi encarregado (onde é que Ventura aprendeu isto?).
O pilar do ódio
No mesmo dia do massacre das crianças da escola de Nashville, um juiz distrital, antigo ativista antiaborto, anulou a autorização de comercialização e uso médico de uma pílula abortiva, concedida pela autoridade sanitária federal, a Food and Drug Administration. A maioria republicana da Câmara dos Representantes ameaçou cortar os fundos desta entidade pública caso a autorização seja restaurada. Entretanto, há legisladores estaduais republicanos que já fizeram aprovar a criminalização da receção por correio dessa pílula abortiva ou até da viagem de uma mulher a um estado vizinho que não proíba o aborto.
A boçalidade destas medidas, que não tem limite, não está só na sua incongruência jurídica, mesmo que o sinal dado pelo Supremo Tribunal, de maioria trumpista, incentive estas investidas que se vão multiplicando. Está de facto na visão da sociedade que propõem, ao recusar o direito da mulher a escolher a sua vida sexual e reprodutiva e ao proporem um sistema de controlo pessoalizado que exige um mundo de bufaria e de medo, pois só assim se cumpririam leis tão extraordinárias. Não se diga que é impossível, pois empregados da Tesla partilham entre si vídeos captados dentro dos carros vendidos pela empresa e as técnicas de vigilância ganham dimensões poderosas e inimagináveis, pelo que é certo de que se trata de um novo mundo. Já chegou e não vamos ser poupados a esta indignidade. A direita é isto.
Artigo publicado no jornal “Expresso” a 14 de abril de 2023