Já que não se fala de outra coisa a não ser de números

porMarisa Matias

17 de outubro 2010 - 0:09
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A cada ano que passa, fraude, corrupção e desperdícios custam 56 mil milhões de euros aos sistemas de saúde europeus.

Recentemente foi divulgado um estudo cujos resultados são bastante reveladores: a cada ano que passa, fraude, corrupção e desperdícios custam 56 mil milhões de euros aos sistemas de saúde europeus. Em média, estes desvios correspondem a nada menos do que cerca de 6% dos orçamentos da saúde em cada país.

Este estudo revelou ainda outros dados importantes. É que apesar de todas as diferenças existentes entre os sistemas de saúde europeus, a fraude e a corrupção são elementos transversais a todos eles. Acrescem ainda os gastos associados a falta de coordenação, tratamentos desnecessários, sobreposições de diagnóstico e ineficácia. A política do medicamento e o aumento da contrafacção de medicamentos no espaço europeu também não ficam imunes no diagnóstico feito.

Não faltaram as vozes a dizer que a "culpa" era da má gestão pública dos sistemas nacionais de saúde. Valem-nos a história e a memória como importantes aliados: os números associados ao desperdício, à fraude e à corrupção aumentaram com o desmantelamento dos serviços públicos e a implementação crescente de sistemas de gestão hospitalar na base de parcerias público-privadas.

Basta-nos olhar para o que se tem passado em Portugal e a evidência quase fere o olhar. Na mesma semana em que o Tribunal de Contas arrasou a gestão privada do Grupo Mello em algumas das nossas unidades hospitalares, o governo de Sócrates decidiu entregar ao mesmo grupo a gestão de um hospital em Braga.

É a insistência no erro que só torna as nossas vidas mais difíceis. Em vez de procurar soluções para a redução dos custos da saúde por uma via tão evidente como esta, o mesmo governo optou por colocar o peso nos ombros dos cidadãos através do aumento do preço dos medicamentos e tornando o acesso à saúde mais caro para todos. Pagam mais aqueles que mais precisam deles: idosos e pessoas de baixos rendimentos.

Estes são apenas alguns dos custos contabilizados em números. Faltam os ainda incalculáveis custos sociais das mais recentes medidas.

Alguém quer fazer essas contas?

Marisa Matias
Sobre o/a autor(a)

Marisa Matias

Dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.
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