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Isto não é Cultura mas uma ameaça

O Ministro da Cultura voltou a dar uma entrevista, agora ao Expresso/Revista. De novo, muito afável e agradável de ler. Mas não chega.

Trata-se de uma entrevista muito mais sobre a pessoa e o percurso de Luís Filipe Castro Mendes (pelo próprio) do que sobre a política do ministério que tutela, as escolhas, a estratégia. O percurso que ficámos a conhecer cria a expectativa para uma política para o ministério que continuamos sem conhecer. O apontamento que mais prendeu a minha atenção relaciona-se com a situação desgraçada do Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Instituição secular, indiscutivelmente central para a nossa memória coletiva e para a nossa história, encontra-se “disfarçada” como departamento (pasme-se!) nos meandros da Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas. É tão inacreditável que tenho sempre de reler o que acabo de escrever não vá ser atropelada pelas palavras. Não, não há nenhum engano meu. O ANTT encontra-se nesta situação vai para uns anos e este ministro já manifestou publicamente o seu desacordo (até usou palavras bastante assertivas, ministerialmente falando, claro) e já aproveitou outras tantas ocasiões para prometer a revisão dessa incongruência, realocando ao ANTT a autonomia que merece, e a hierarquia também (e, desejo eu, técnicos e atribuições ao nível das exigências do ANTT). Nunca trabalhei para o ANTT mas também não seria preciso para perceber que a presente fusão é muito perniciosa para o arquivo. E para os arquivos distritais, e para uma política arquivística de alcance nacional. Em nome de todos nós. Nesta entrevista, Castro Mendes volta a prometer pôr cobro à situação; não percebo o que o impede. Falta de verba não deverá ser; talvez falta de instalações para o livro e bibliotecas… estes talvez pudessem continuar sob o telhado acolhedor da Torre, não estiveram assim alojados em regime provisório vários anos sob o telhado amigo da BN?! Quero o melhor para o livro e bibliotecas, mais dignidade, mas a fusão que testemunhamos não deve continuar e se a alegação maior é falta de instalações, ah, alguma coisa vai mal. Há quem se oponha à separação mas, então, é urgente saber os argumentos de quem se opõe. E aproveitando o empurrão, e os princípios mínimos do contraditório, dar espaço e ouvir quem se bate pela autonomia do ANTT. Se o ministro Castro Mendes juntasse a esta equação, o que se tem a exigir ao ANTT em matéria de cumprimento da sua missão, ah, então ia ter muita matéria para dar entrevistas. Todo um dossier à espera de melhores dias enquanto a história continua à espera das ferramentas indispensáveis. Avance, sr. Ministro.

O outro comentário prende-se com o mistério que não pára de crescer lá para as bandas de Santos, nas Janelas Verdes. O ministro Castro Mendes, confessa o próprio, aguarda. Oh, sr. Ministro, não pode aguardar, tem de atuar. Então já se viu um museu (por acaso, o mais notável museu do país) avançar para uma exposição (com responsabilidade para a interpretação da história portuguesa) sem esclarecer se as duas telas principais a expor (objecto e motivo da exposição) são verdadeiras ou falsas?! O debate extravasou, tornou-se público (ainda bem, claro), o diretor do MNAA reserva-se, tem dúvidas se há-de ou não avançar (tanta hesitação teria sido muito útil antes de pedir as telas emprestadas), os professores pegam nas telas, nos factos, na história de vida das próprias telas, e não perdoam. À liça, chegam os historiadores de arte, o debate espraia-se. Alguns argumentos não se revelam muito sólidos ou coerentes fazendo pensar que nem tudo se resume ao que vem a público. O debate é bem vindo mas vem atrasado e talvez pouco resguardado. Deveria ter acontecido antes, na fase de preparação da exposição, nos gabinetes de trabalho, no laboratório. Aprovada uma ideia para a exposição, quando se escolhiam peças que sustentassem o conceito, a selecção das peças deveria ter sido acautelada e se tudo rodava em torno destas duas telas, então, todos os cuidados seriam poucos. Como é que isto acontece? As Janelas Verdes estão ao rubro. Chegados aqui, o MNAA entra em rota de colisão com o ministério e vai ter de prestar contas. Contas, claro, porque as telas não chegaram às Janelas Verdes de graça e a sua estadia nas galerias das Janelas Verdes tem um custo. Quanto maior é a nau, maior os encargos (tormenta)! Por referir encargos, adivinhem, quem vai pagar. O MNAA terá verbas provenientes do ministério (terá outras, irrelevante para esta discussão); o ministério funciona segundo o orçamento que conseguiu (os 20 milhões a mais para 2017 têm de ser muito bem aplicados); e o orçamento vem exatamente do mesmo sítio donde vem todo o dinheiro. Como logo se conclui, as contas são mesmo contas e não se esgotam em debates de carácter técnico, científico ou deontológico. Chegados a este patamar, o assunto diz-nos respeito a todos, começa a doer mesmo ao mais indiferente por telas quinhentistas e será bom que tudo se esclareça quanto antes. Porque para vergonha já basta assim!

Sobre o/a autor(a)

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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