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Isto é demasiado sério

Sempre que ouvir que uma questão é “demasiado séria” e requer uma união nacional, registe por favor que nada vai ser feito pelos demasiadistas para resolver o problema.

Houve um momento curioso no final do debate Rio-Costa. Quando perguntado sobre alterações climáticas, Rio retorquiu que a questão é demasiado séria para que nela haja divergências partidárias. O problema é que, sendo a questão séria, há mesmo diferenças de estratégia, tão graves que têm paralisado as respostas dos diversos governos e instituições: há quem entenda que é o mercado que vai corrigir as emissões tóxicas, com a venda de autorizações de poluição; os cientistas defendem que é preciso reestruturar a produção e encerrar fontes de poluição; há quem defenda as cidades sem carros e há, do outro lado, quem proteja as indústrias extrativas, a economia do carvão, do petróleo e do nuclear. Neste caso, o fingimento consensual prejudica, em vez de ajudar a solução dos problemas mais urgentes, porque implica que seja feito menos do que pouco nesses escassos anos que nos restam para evitar a irreversibilidade da degradação ambiental.

A questão, no entanto, é mais vasta do que essa simpatia concordante entre Rio e Costa. Todas as grandes questões são demasiado sérias. Não há nenhuma que não seja séria. É demasiado séria a vida das enfermeiras emigradas para o Reino Unido e que fazem falta nos nossos hospitais, ou dos jovens engenheiros contratados a 700 euros. É mesmo séria a falta de anestesistas nas urgências dos hospitais ou os doentes internados em refeitórios na PPP do hospital de Vila Franca de Xira. Ou as pensões tão baixas. Ou o acórdão do juiz Neto de Moura invocando a punição das mulheres. Ou o Brexit ou a política de Trump. Qual dessas questões não é demasiado séria?

Ora, se pensássemos que as questões sérias requerem unanimismo e as que sobram para ser discutidas seriam as menos sérias, a democracia ficaria congelada. Ou temos um problema de classificação ou um problema de escolhas. Pelo contrário, diz a experiência que as convergências partidárias podem ser importantes (o acordo de 2015 entre o PS e o Bloco para o aumento do salário mínimo em 20%, por exemplo), mas não necessariamente abrangentes (a direita não concordou), e nem por isso deixarem de ser decisões essenciais. Houve convergência do PS e depois do PSD e CDS com o programa da troika, mas não necessariamente com a sua forma de aplicação (a direita anunciou que iria “além da troika”). Houve convergência entre esses partidos quanto à privatização da EDP e dos CTT, mas hoje parece haver alguma reserva em relação pelo menos ao caso dos CTT, cujo desempenho tem sido chocante. Por isso, o “demasiado sério” para haver diferenças partidárias em questões fundamentais como estas, das alterações climáticas ao funcionamento dos CTT, será mais um jogo de palavras do que uma opção prudente. Mas não deixa de ser expressivo que, prenunciando a sua derrota, Rio tenha feito um ano de liderança a declarar que preferia a vitória de Costa desde que a esquerda fosse afastada da influência sobre o Governo e que agora escolha pelo menos alguns casos cirúrgicos para reafirmar esse estranho princípio do consensualismo logo que surgem as questões mais difíceis.

Siga então um bom conselho: sempre que ouvir que uma questão é “demasiado séria” e requer uma união nacional, registe por favor que nada vai ser feito pelos demasiadistas para resolver o problema.

Artigo publicado em expresso.pt a 17 de setembro de 2019

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Ativista do Bloco de Esquerda.
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