Enquanto a ciência questiona a verdadeira eficácia da Inteligência Artificial (IA) sobre o desenvolvimento humano e o seu impacto na cognição e capacidade de pensar; o Ministro da Educação e Ciência, MECI, defende o seu uso, como forma de “aumentar a capacidade dos alunos”, propondo alterações na formação de professores, nos métodos de ensino e nos currículos, para acomodar a AI e “minimizar os seus riscos”.
Já o Ministro Adjunto da Reforma do Estado, avançou na abertura da “Web Summit 2025” em Lisboa, que cada aluno terá um tutor de inteligência artificial que “ouve, orienta e inspira a aprendizagem”.
Este deslumbramento desinformado sobre o papel crucial do contexto escolar e dos professores vai contra os modelos do desenvolvimento humano, ainda por cima num contexto de falta de docentes, tornando-se assim, num perigo para a Educação de crianças e jovens.
A falta de professores tem originado situações de recurso como o uso da Componente não Letiva ou o desvio de funções de docentes de apoio, de Língua Não Materna e Educação Especial, para a lecionação de grupos disciplinares de origem. Incapaz de resolver a enorme falta de recursos humanos nas escolas portuguesas, o MECI deita mão de todas as possibilidades que evitem ter alunos sem aulas, com custos de desigualdade para os mais vulneráveis.
Esta situação diminui as respostas no âmbito da inclusão e do apoio à diversidade, deixando os apoios específicos essenciais à inclusão cada vez mais desfalcados, o que leva à tentação de criar tutores ou outras ferramentas de substituição ou compensação.
Sabemos dos problemas que se criaram na pandemia pela debilidade da aprendizagem conseguida, bem como o acesso diferenciado aos recursos digitais e aulas online, que ainda hoje continua a ser um fator de desigualdade entre alunos, com os mais frágeis, mais uma vez, em desvantagem.
Países que inicialmente apostaram no digital na escola estão a retroceder pela evidência dos malefícios para o desenvolvimento, regressando ao lápis e ao papel, ao motor, ao social, às relações, ao erro e ao esforço. Sabe-se hoje também que um écran não ajuda no foco, no tempo de assimilação, nem na organização cognitiva.
A IA usa algoritmos para escolher e decidir por nós, retirando autonomia e apresentando respostas tendenciosas que não controlamos, criadas para nos tornar dependentes, dizendo o que queremos ouvir de forma grosseira e cujos estragos são já bem visíveis nas redes sociais.
Existe também os perigos da gamificação da aprendizagem, da exposição de crianças e jovens à internet, da massiva recolha de dados pessoais e sua utilização sem regras, bem como a falta de transparência e neutralidade dos algoritmos, que tendem a reproduzir desigualdades e vieses culturas.
Não é uma simples ferramenta de ensino ao dispor do professor, já se generalizou, realizando tarefas complexas pelo aluno sem que este necessite de explorar ou entender verdadeiramente sobre o assunto e isso compromete o seu crescimento.
A Educação não abrange apenas mecanismos transmissivos automatizados, é promotora de capacidades cognitivas e também de contexto social, emocional e ético.
O desenvolvimento humano é um processo dinâmico, contextual e multidimensional. A inteligência é um processo intencional, consciente, alicerçado no real e pressupõe uma compreensão do mundo em toda a sua subjetividade, por isso as interações sociais, o contexto de aprendizagem, as experiências e a ação, são muito mais importantes do que uma aprendizagem concreta em si mesma.
A IA em Educação é um perigo em mãos desavisadas, especialmente quando destinada a uma geração que necessita urgentemente de processos de aprendizagem envolventes, com significado e gerados no seio de relações de qualidade, numa fase de plena construção da personalidade e tomada de consciência do mundo.
Torna-se num perigo maior quando o utilizador não tem meios para um olhar crítico ou para se defender das consequências nefastas no seu processo de descoberta emancipatória e de pensar por si próprio.
É importante recordar que a IA é um investimento de biliões numa bolha que sustenta a economia dos EUA e se espalha pelo mundo, com o objetivo de gerar lucro, substituir mão de obra e criar desigualdades. Não é um processo democrático de melhoria da vida dos cidadãos ou dos trabalhadores, como já demonstra a sua aplicação em diversos setores.
É tudo uma questão de rentabilidade e poder. Quanto mais dependente for o utilizador, maior o lucro, maior a difusão e comercialização e, consequentemente, maior poder para alguns. Por isso é feita para agradar, ligar-se emocionalmente e tornar a pessoa dependente, imatura e menos inteligente.
Toda esta pressão da sua utilização massiva, incluindo na Educação, tem óbvios efeitos nefastos nos educandos, mas também na possibilidade de substituição de um adulto qualificado, seja a que patamar for.
Pela forma como se embarca neste tipo de encantamento, parece que os nossos governantes consultaram a própria IA para desenvolver a ideia de a usar como mediadora educacional, que lhes disse o que queriam ouvir.
Versão alargada do texto “Tutor virtual não substitui a humanidade de um professor”, na revista do SPGL em dezembro 2025.