Os meios de comunicação social mantiveram ao longo dos anos uma política de dar espaço e voz a todas as correntes ideológicas do nosso leque político. São as regras da democracia a funcionar, parece consensual. Durante cinquenta anos foi assim até ao momento em que tudo deslaçou. Como na culinária, o creme deixou de ter consistência, no fundo da panela começou a formar-se uma aguadilha, incipiente ao princípio até que tomou conta do cozinhado. Nessa altura, a única coisa a fazer, é deitar fora, pia abaixo.
Com o espaço público estamos assim. Fomos sempre ouvindo e lendo comentários que visavam fazer vencer os argumentos contra Abril, as formas podiam ser encapotadas, com pézinhos de lã, mas tenacidade de lobo. Enquanto a maioria na Assembleia da República foi de esquerda, ou mais ou menos, os reflexos na comunicação social eram temerosos. Mas a maioria de esquerda foi-se, imprudência máxima, impante caiu. Para desdita nossa, a extrema direita substituiu-a. Na AR, na vida cívica e, cúmulo dos cúmulos, está a organizar-se para tomar conta do espaço público da comunicação social. Vocês não acham não que o aparecimento seguido de comentadores que se atiram, cada vez com maior ferocidade e desplante, a tudo quanto possa ter uma relação com a esquerda é casual? Não, não pode ser obra do acaso. Estão aí para quem tiver a paciência de os ouvir, ora nas televisões públicas, ora nas privadas, ora nos jornais. Falam desbragadamente, antes das intervenções para que foram convidados dão-se à arrogância de dedicarem as palavras iniciais a criticar intervenções da véspera noutros programas, atiram-se aos oponentes como gato a bofe, como se não houvesse mais amanhãs, interrompem quem está no uso da palavra, ficam histéricos, as falas saem-lhes estridentes. Os moderadores não têm mão no chinfrim que se instala à volta das mesas, os cameramen filmam de forma destacada estes arautos de verdades absurdas, lesivas da nossa inteligência, contra os interesses mais profundos da audiência. Ultimamente o tema preferido é o genocídio em curso em Gaza, pelas piores razões, claro. Negam o genocídio ou vilipendiam-no. Esses comentadores (eles e elas) estão nos antípodas da democracia, já ultrapassaram todas as linhas vermelhas, deviam ser dispensados. Usam o espaço público para uma campanha anti-democrática, sistemática e persistente. “Água mole em pedra dura tanto dá até que fura”.
Então, e os moderadores? Alguns vejo-os assarapantados, apanhados sem preparação ou calo para estes cenários inesperados. Aos moderadores devia ser dada autorização para interromper tais espiches enquanto as redacções preparariam regulamentos para prevenir esta situação. O direito a exprimir a opinião é essencial e um bem que estimamos, mas exprimir uma opinião é uma coisa, aproveitar aqueles minutos de antena, ou os caracteres a que têm direito para a sua crónica no jornal, para lançarem mensagens de ódio é outra totalmente distinta e inaceitável. Copiam o estilo salteador de estrada da forma mais descarada e impune. Aos moderadores não assenta bem o actual retrato.
Na oportunidade de uma entrevista ou de um comentário, há que aguentar a pé firme, sem cedências e fazer da nossa indignação, ou das nossas razões, uma causa comum envolvendo no debate o moderador, chamando a atenção deste para eventuais atropelos. A figura de moderador não é decorativa; ele, ou ela, partilha connosco a mesma comunidade, as mesmas apreensões, é preciso que ele, ou ela, sinta que aquele momento também afecta a sua dignidade. Há que lançar o convite, envolvê-lo(a) no debate, o que pode começar por lhe sugerir que acabe com o charivari que não serve a ninguém, podendo ir até um “você não acha?” ou “você como eu…”. À volta da mesa, o inimigo é quem vocifera, o moderador pode vir a ser o aliado. Como estamos, é insuportável.