Inquietações sobre a luta de classes

porJosé Soeiro

04 de agosto 2011 - 12:02
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Aproveito o verão para partilhar algumas inquietações que vão para lá do presente absoluto. Basicamente, sobre a articulação entre programa, acção colectiva, pensamento crítico e razão estratégica.

A luta de classes não tirou férias. Não tanto porque se multipliquem, em pleno Agosto, os fenómenos de resistência ou de contra-ofensiva, mas mais porque a declaração de guerra e a agressividade do poder não tem tido nenhum momento de descanso. A pressa em discutir as alterações ao Código do Trabalho, as instruções para que a segurança social persiga os falsos recibos verdes com dívidas à segurança social ou o escândalo da venda do BPN a preço de saldo são apenas três exemplos.

Quando, em Março, milhares de pessoas estiveram na rua nos protestos da geração à rasca (e depois, menos, na jornada de luta da CGTP), chegou a parecer que se iniciava um novo ciclo de luta e mobilização sociais. Mas hoje, perante a dimensão do ataque, que é feito de toda essa gente? O que levou tantos milhares à rua? A raiva contra a precariedade? O descontentamento com “a política e os políticos”? E os motivos de descontentamento que então existiam, existirão hoje em menor dimensão?

Aproveito o verão para partilhar algumas inquietações que vão para lá do presente absoluto. Basicamente, sobre a articulação entre programa, acção colectiva, pensamento crítico e razão estratégica.

Ir à raiz dos problemas?

Uma das operações mais difíceis nos tempos que vivemos é a de identificar e tornar visível a raiz dos problemas. Mas essa é porventura uma das tarefas mais importantes. Segue um exemplo simplificador. Se o problema é a “política” em geral, então o alvo a abater é a “democracia”. Se o problema é “os políticos que têm governado”, então o dedo é apontado ao Governo. Se o problema é o sistema económico que nos governa (e onde reside, diga-se, o núcleo do poder que determina a generalidade das escolhas), então o inimigo é o capitalismo. Mas como trabalhamos estas hipóteses, e em particular a terceira?

Na geração à rasca, os promotores da iniciativa e os movimentos de precários concentraram o discurso nas duas últimas hipóteses e contestaram a primeira, que tinha força no senso comum, na narrativa da direita e numa parte considerável de quem se mobilizou. Mas a luta não está ganha. E precisa provavelmente de articular programa e proposta política, acção colectiva, pensamento crítico, razão estratégica e produção de um outro senso comum alternativo. Daí um brevíssimo comentário sobre cada uma, em modo de pergunta.

Programa, ou a necessidade do concreto

Sem programa e proposta política, a mobilização é mais difícil e a identificação do inimigo fica abstracta e, portanto, intangível para a maioria das pessoas que querem juntar-se em torno de qualquer coisa de concreto. A iniciativa legislativa de cidadãos, por exemplo, responde directamente a este problema, e bem, na minha opinião. Que outras podemos ter para responder a este ciclo, no que diz respeito à criação de emprego, ao ataque à protecção no desemprego (que passa a ser vista como um privilégio ou um instrumento de controlo inquisitorial sobre as pessoas), à dívida, ao problema da habitação e dos transportes, à transformação do estado social em estado penal?

Acção colectiva e desobediência

Sem acção colectiva não existe transformação social, nem sequer capacidade de resistência a este processo de assalto social aos direitos e ao rendimento de quem trabalha. Em Portugal, tem havido exemplos interessantes de mobilização das “gerações 500 euros”. Iniciativas de rua, ocupações simbólicas de empresas de trabalho temporário, colaboração com os sindicatos em torno do combate à precariedade, petições, acções simbólicas contra agências de rating, iniciativa legislativa cidadã. De outros pontos da Europa vêm-nos ideias de acção directa que criam uma cultura positiva de desobediência. Não precisaremos de reforçar essa cultura e de multiplicar acções que, mesmo quando não exigem a presença de grandes “massas”, têm um efeito de massa pela sua capacidade de disseminação comunicativa? Exemplos de outros países: ocupações das empresas de trabalho temporário, greve dos desempregados aos controlos repressivos e à “apresentação obrigatória”, pique-niques de solidariedade em hotéis que recorrem a trabalho precário ou em instalações dos bancos, pique-niques de “redistribuição” de comida nos supermercados, contra a carestia de vida (em que a comida é retirada das próprias estantes e oferecida aos clientes que se juntam), criação de acções de “isolamento sanitário” de determinados locais que propagam a “gripe precária” (ETTs, certas lojas, etc.), entre tantas outras... E já agora, havendo essas acções, como juntar essa energia dos acontecimentos à necessidade de acção continuada e organização – nomeadamente nos colectivos que entretanto se formaram e nos sindicatos que existem?

Pensamento crítico e “razão estratégica”

Sem pensamento crítico não temos as armas intelectuais de que precisamos para este tempo. No caso do marxismo, por exemplo, a geração dos pensadores “clássicos” era ao mesmo tempo dirigente das principais organizações operárias (pensemos em Kautsky, Lenine, Rosa Luxemburgo, Trotsky, Otto Bauer), ou seja, a experiência e o pensamento da revolução estavam intrinsecamente ligados. Eram as necessidades da resposta política concreta que obrigavam à produção de conhecimento empírico e de reflexão teórica. A partir da derrota da revolução alemã, e ao longo do século XX, a relação entre intelectuais e organizações políticas vai-se transformando, com relações ora de “compagnons” estilo Sartre, ora de desconfiança como Althusser, ora de independência como Marcuse ou Adorno. Hoje o marxismo não é hegemónico no campo do pensamento crítico contemporâneo, se bem que seja uma referência incontornável. Por outro lado, a maioria do pensamento crítico é produzido no âmbito das Universidades (e isso significa que obedece a outro tipo de regras e constrangimentos) e tem uma relação muito mais ténue com os debates estratégicos das organizações, sejam elas movimentos, sindicatos ou partidos. Como pôr em comunicação o conhecimento acumulado, a reflexão crítica produzida e a acção colectiva? Como socavar o fosso entre pensamento, movimento e organização, de modo a fazer emergir no pensamento crítico contemporâneo uma “razão estratégica” (para utilizar a expressão de Bensaïd) sem a qual dificilmente haverá projecto nem a “lenta impaciência” de que precisamos?

Responder a estas três perguntas, por si só, não resolve os nossos problemas. Mas talvez ajude a começar a construir esse outro senso comum emancipatório que ponha em causa a ideia mais forte com que tentam paralisar-nos, a da inevitabilidade. E a equilibrar, como diria Gramsci, o pessimismo da razão com o optimismo da vontade.

José Soeiro
Sobre o/a autor(a)

José Soeiro

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.
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