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A inflação não está controlada!

Em maio, foi aprovado no parlamento do Açores um conjunto de medidas propostas pelo Bloco. Todavia o governo regional não as cumpre na generalidade e as que cumpre fá-lo de forma insuficiente.

O enorme aumento da inflação é um assunto incontornável. Não é de admirar. A única coisa que surpreende é o governo regional ter demorado tanto tempo a acordar para o problema.

Mas não foi por falta de aviso. Pelo contrário, o problema é internacional e é objeto de acesos debates sobre as medidas a serem implementadas no imediato para fazer baixar a inflação e fazer face ao aumento do custo de vida e consequente empobrecimento da população.

Nos Açores, desde abril que o Bloco alerta para a necessidade de implementar no imediato medidas para mitigar os efeitos nefastos da inflação. Em maio, foi aprovado no parlamento do Açores um conjunto de medidas propostas pelo Bloco. Todavia o governo regional não as cumpre na generalidade e as que cumpre fá-lo de forma insuficiente.

Em abril poderia efetivamente dizer-se que o governo regional estava distraído com os seus problemas internos, ao invés de antecipar problemas e implementar no imediato medidas de mitigação dos efeitos da inflação. Em julho não há forma de dizer que o governo está distraído. Seria demasiada incompetência. Então o que mudou de abril a julho?

Em julho realizou-se o congresso do PSD/Açores e nele o novo presidente do PSD fez uma brutal crítica ao governo regional dos Açores e ao PSD/Açores. Luís Montenegro, ao acusar o governo da república de "comportamento quase imoral" por estar a "ganhar dinheiro com a inflação", estava ao mesmo tempo a criticar o governo regional. Veja-se por exemplo a receita de IVA da região, que só até maio de 2022 aumentou mais de 10ME comparativamente a 2021. A carapuça serve que nem uma luva nas cabeças do governo regional, que ainda fez menos para combater os efeitos da inflação do que o governo da república.

Ora, perante essa esmagadora crítica do líder do PSD, que não teve qualquer pudor em demolir a política do governo regional do seu partido, não restou ao governo regional mais nada do anunciar qualquer coisa para escapar ao embaraço.

Mas olhemos para as ações e omissões do governo. É incompreensível que só agora o governo vá sentar-se à mesa com os sindicatos para negociar o aumento da remuneração complementar. E só se compreende a recusa de intervir no mercado, regulando preços de bens essenciais, limitando margens de comercialização, à luz da cegueira ideológica da direita, que deixa o povo cada vez mais pobre.

Chegados aqui, perante as previsões que surgem a cada dia sobre a inflação e perante a potencial crise do gás natural na Europa no próximo inverno, exige-se que o governo prepare o choque que provavelmente vamos enfrentar. Por exemplo, qual é a previsão da taxa de inflação do governo revista para este ano? Em vez de anunciar essas previsões, o presidente do governo limita-se a dizer que a inflação nos Açores está perfeitamente controlada! Infelizmente, os dados da inflação de julho irão provavelmente desmenti-lo. É um governo em negação! Como é que o governo decide e quantifica as medidas que quer implementar sem previsões realistas? A olhómetro?

Mas independentemente das previsões, aumentar salários é absolutamente imprescindível para enfrentar a tempestade que aí vem. Usemos os instrumentos que a autonomia nos dá para o fazer, aumentando o complemento regional do salário mínimo para 7,5% e criando condições para aumentar todos os salários. Recordo que 37% dos trabalhadores dos Açores aufere o salário mínimo. Um aumento de 18€/mês chegará por isso a milhares de famílias. Não é coisa pouca.

Sobre o/a autor(a)

Deputado do Bloco de Esquerda na Assembleia Regional dos Açores e Coordenador regional do Bloco/Açores
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