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A importância de Marisa Matias ter visitado o campo de refugiados de Mória

A solução oferecida pelas autoridades gregas e europeias foi, novamente, um campo de refugiados. Construído à pressa e de novo sem quaisquer condições.

Há duas semanas o maior campo de refugiados da Europa ardeu. O campo de Mória, na ilha grega de Lesbos, tinha sido construído para acolher 3 mil pessoas e em janeiro tinha mais de 19 mil; não tinha eletricidade nem esgotos, a água potável e a comida eram escassas. Havia centenas de crianças sem ninguém que cuidasse delas, 40% dos residentes tinham menos de 18 anos e viviam em cabanas feitas de paletes e plásticos, no meio da lama e, no inverno, do gelo.

As pessoas que ali viviam haviam fugido de países em guerra e encontraram um campo que era descrito como o “inferno na terra”. Em 2018, a associação Médicos do Mundo considerou que o campo de refugiados de Mória era o “pior campo de refugiados do mundo”, onde “até as crianças de 10 anos tentam o suicídio”.

Agora veio o fogo.

O incêndio destruiu grande parte do campo, deixando sem abrigo mais de 12 mil refugiados. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, disse que “lamentava muito” o fogo, mas não pediu desculpas pela inação da União Europeia e por se terem deixado milhares de pessoas naquelas condições durante anos.

Passaram duas semanas e ainda não há solução para quem vive em Mória. As milícias de extrema-direita cercaram algumas das estradas, impedindo que os refugiados procurassem ajuda e há milhares de famílias com crianças sem abrigo, sem água, sem comida, sem medicamentos há tempo demais.

A solução oferecida pelas autoridades gregas e europeias foi, novamente, um campo de refugiados. Construído à pressa e de novo sem quaisquer condições. Desesperadas, as pessoas aceitaram, não é que tivessem escolha.

Como se não bastasse, estamos no meio de uma pandemia, e se em Mória poucas eram as possibilidades de combater o vírus, depois do incêndio a situação tornou-se pior. No novo campo há um local onde fazer o teste à Covid-19, mas não há maneira de tratar os doentes, e quem testa positivo está a ser isolado em tendas, sem água, sem casa de banho e rodeado de arame farpado.

Como sabemos isto? Porque a eurodeputada e candidata presidencial Marisa Matias foi ao campo de refugiados e testemunhou a desumanidade com que a União Europeia gere esta catástrofe. Precisávamos de saber o que se estava a passar em Lesbos e Marisa Matias fez o seu trabalho, prestou a sua solidariedade.

Marisa Matias já o disse: um novo campo não é solução, a solução é a recolocação urgente destas pessoas nos vários países da Europa. A solução é a solidariedade.

O Governo português afirmou que está disponível para acolher 100 pessoas do campo de Mória, mas a Câmara Municipal de Lisboa aprovou na passada semana uma moção do vereador Manuel Grilo do Bloco de Esquerda (que tem um acordo de governação com o PS) para acolher mais refugiados, para se dar mais tempo aos programas de acolhimento e para se investir mais nas condições de habitação. A solução é a solidariedade.

Num momento em que crescem as forças que nos querem dividir, temos de indignar-nos com a catástrofe humana e de sentir empatia por quem fugiu com a família da guerra e da fome. Por isso, a denúncia que Marisa Matias fez e a declaração de solidariedade de Lisboa são tão importantes.

Artigo publicado em Jornal Económico a 23 de setembro de 2020

Sobre o/a autor(a)

Engenheiro e mestre em políticas públicas. Dirigente do Bloco.
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