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A importância das coisas

Quando se vivem crises económicas como a que o país atualmente vive e quando a miséria e o desespero se instalam para tantos de forma perene, parece existir uma tendência - que se assume quase como natural - para hierarquizar a importância das coisas. E das causas.

Tenho-me deparado ultimamente com vários exemplos destes: é urgente atender à fome, a quem vive agora nas ruas, à cada vez maior dificuldade em aceder a tratamentos de saúde e a medicamentos, ao direito ao trabalho e ao salário digno. Ninguém negará que a sobrevivência depende de se assegurarem estas condições. Mas, consequentemente, os direitos que respondam a outras reivindicações para além da básica sobrevivência são relegados para um plano de menor importância e logo, de menor urgência.

No entanto, a importância das coisas é relativa. Depende de quem as vive e da perspetiva com que são olhadas e sentidas.

É também preciso atender ao direito à educação e à cultura para todos. E ao flagelo da violência doméstica e do número crescente de mulheres mortas. E às questões LGBT, aos direitos das pessoas transexuais ou à igualdade de género. E garantir a sustentabilidade ambiental e os direitos dos animais. E cuidar dos reformados e das pessoas com deficiência.

Hierarquizar coisas e causas parece ser uma consequência natural dos momentos de crise em que nos aparece como evidente tratar primeiro de pôr comida nos pratos. Mas esta hierarquização é perigosa. Corremos o risco de acabarmos a lutar pelo mínimo dos mínimos. Não tarda já não se falará do direito à alimentação equilibrada. Um pão e um copo de água bastarão. Uma habitação condigna deixará de ser um direito constitucional. Uma qualquer barraca servirá. Um salário digno pode bem ser substituído pela esmola ou até pelo pão e pelo copo de água. Afinal há que atender primeiro ao básico – a sobrevivência. Esta é também a estratégia de um governo conservador. Nivelar por baixo. Depauperar para reinar. Tiram-nos um terço e já só pedimos metade. Tiram-nos metade e já só pedimos um terço.

O Bloco de Esquerda não cede a esta estratégia de menorização das coisas. Ou das causas. Não capitula perante a chantagem quotidiana sobre a Constituição. A defesa dos direitos constitucionais fará sempre parte da sua agenda. Sem hierarquias. Porque são todos igualmente importantes. Porque todas as pessoas são igualmente importantes. Porque só no seu todo se pode garantir a vida para além da sobrevivência.

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda. Professora universitária. Socióloga.
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