Imperialismo, novos desafios

porNuno Pinheiro

01 de junho 2023 - 21:30
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Na discussão atual sobre a guerra da Ucrânia tem vindo a debate a existência ou não de um Imperialismo Russo, sendo esta uma das razões que justifica posições diferentes.

Na discussão atual sobre a guerra da Ucrânia tem vindo a debate a existência ou não de um Imperialismo Russo, sendo esta uma das razões que justifica posições diferentes. Nesta troca de posições até o velho “Social Imperialismo” veio à baila. Utilizemos este pretexto para voltar aos tempos de Krutchev e Breznev. A divergência central entre os que usavam esta terminologia e os que a ela se opunham era a existência ou não de apropriação privada dos meios de produção. Imperialismo implicava a existência de um sistema capitalista, ou seja, essa apropriação privada; para outros, apesar de haver uma casta privilegiada, e de esta beneficiar de uma distribuição desigual de rendimentos, não tinha a propriedade dos meios de produção. Curiosamente os que defendiam que a URSS era um país capitalista e imperialista, defendiam regimes muito semelhantes, Albânia ou China, que eram, para eles, o exemplo do socialismo. A unanimidade existia na condenação do uso de meios violentos por parte da URSS em países que dominava. A Primavera de Praga era uma recordação viva, mas a designação “social-fascismo”, irmã da do “social-imperialismo”, não era unânime.

Sobre a natureza capitalista da Rússia atual não há dúvidas, mas, se recuarmos até Ivan O Terrível, contemporâneo de D. João III e D. Sebastião, encontramos uma Rússia ocupada a estabelecer um Império Colonial. Portugal e Espanha faziam-no no mar, a Rússia fazia-o em terra. Durante 150 anos as conquistas correspondiam anualmente, em média, ao território da Holanda. Esta expansão fez-se em três continentes e permitiu aos czares subjugar uma série de povos diferentes. Chegou à América, a busca de peles levou a Rússia da Sibéria ao Alasca, mas mais espantosamente, chegaram até ao Havai. Na Ásia Central teve confrontos com outra potência imperialista, a Inglaterra, curiosamente ao mesmo tempo em que se procedia à partilha de África. A China e o Japão não ficaram ilesos. Na segunda Guerra do Ópio massacram-se populações chinesas. A oeste Polónia, Países Bálticos, Moldávia, Ucrânia, Finlândia, vão sendo conquistadas em disputa com outras potências, algumas no seu ocaso. Todas estas conquistas têm uma justificação ideológica no Pan-eslavismo que erigia Moscovo na terceira Roma e dava à Rússia um papel redentor no mundo. Em Portugal tivemos ideologias semelhantes, lembremos o Quinto Império.

A URSS vai herdar o antigo império russo, algumas partes vão-se tornar independentes, em relação a outras houve comportamentos muito diferentes, alguns claramente de domínio imperial (deportação dos naturais, russificação), outros de crescente autonomia. O fim da URSS marca também a independência de muitos, mas não todos os territórios. A realidade atual da Federação Russa é a manutenção de enormes desigualdades entre regiões e repúblicas, estando algumas entre as mais desenvolvidas do mundo, outras mais próximas dos mais atrasados países de África. O Pan-eslavismo que pode parecer uma ideologia arcaica da época da criação do império é hoje apregoada por inspiradores de Putin e pelo próprio Putin. Há mesmo um nome para essa ideologia, o ruchismo, uma mistura de ultranacionalismo, expansionismo, culto da personalidade e rejeição da democracia, agregados por essa missão civilizadora da Rússia. Na economia mundial a Rússia é sobretudo um exportador de matérias-primas e armas, o seu imperialismo é bastante arcaico, dir-se-ia pré-capitalista, feito de domínio territorial e força armada, mais do que de domínio económico, mas não deixa de ser um imperialismo.

A Rússia é uma potência decadente e a invasão da Ucrânia terá aí uma das suas causas, mas também uma das suas provas. Sendo uma superpotência está atolada numa guerra contra um país bastante mais pequeno que não teria, segundo Putin, razão de existir. Olhando mais para leste, a China é a grande potência económica emergente, o país mais populoso (terá perdido este título há dias) e a caminho de se tornar a maior economia. Pergunta-se se será imperialista. É uma questão que evolui rapidamente, mas já há livros publicados sobre o assunto, nomeadamente por Remy Herrera. A primeira leitura aponta para um domínio do Partido Comunista que excluiria o capitalismo. A quantidade de produtos “Made in China” significa que há muitos operadores de países capitalistas a produzir lá, graças à mão de obra barata. Isto até apontaria para um país dominado por imperialismos externos, mas será que essa é a situação atual?

Os fabricantes de produtos de luxo têm hoje na China o seu maior mercado. Representa o que os Estados Unidos representavam em tempos. Significa que há pessoas com muito dinheiro, pode-se ver a lista de bilionários (quem tem mais de mil milhões de dólares) em que a China é mesmo o primeiro país, e o único a ultrapassar os 1.000 bilionários. Se vamos às maiores empresas do mundo, tem 145 no “Fortune 500”, mais que as 125 dos EUA, e, embora nenhuma das duas primeiras seja chinesa, começam na nº3 que é a maior empresa de produção de eletricidade.

O número de bilionários mostra a existência de apropriação privada dos meios de produção, não se trata, como na URSS de Estaline a Gorbachev, do uso de enormes privilégios, das dachas e dos Zil (casas de férias e limousines), do melhor caviar e das melhores peles. Muitas das grandes empresas chinesas são estatais, mas muitas outras são privadas, algumas delas da propriedade de dirigentes do PC Chinês. Chen Dongsheng é proprietário de uma das maiores companhias de seguros e casado com uma neta de Mao Zedong. Cerca de 20% dos membros do Congresso Nacional do Povo são homens de negócios e o total da riqueza dos membros deste congresso seria, em 2018, de cerca de 650 mil milhões de dólares. Militar no PC Chinês dá a estes milionários a proteção necessária para os seus negócios. Alguns dados interessantes: Uma recente campanha apela ao boicote dos produtos do grupo VW, alegadamente feitos (rodas e vidros) com trabalho escravo do povo Uyghur, lembrar que a mesma acusação existiu em relação à máquinas fotográficas e outros produtos da URSS (foi assim que comprovadamente a FED teve o seu início); a Huawey, que tem sido apresentada como um exemplo socialista, é, de facto, detida em grande parte pelos seus trabalhadores na China, já que os trabalhadores de outros países não têm acesso à compra das suas ações. Diga-se que os trabalhadores da China têm ações e recebem dividendos, mas não têm poder de decisão sobre a empresa. Esta empresa foi processada na África do Sul, por empregar quase exclusivamente, mão de obra migrante, mais barata que os naturais desse país. Não creio que se possa ir mais longe na ideia de socialismo num só país.

Um dado curioso são as despesas do estado no total da economia e, surpreendentemente, a China tem um nível muito baixo nessas despesas. Os países mais ricos da Europa têm números que se aproximam dos 50%, nos EUA cai para pouco mais de 40% e a China, teoricamente com uma economia mais estatizada, pouco passa os 20%.

Estes dados não provam, apesar de tudo, que a China é um país imperialista, essa prova só pode vir da sua relação económica com o exterior, do seu papel na economia mundial. Até alguns anos o papel da China era, como referido, o fornecer mão de obra barata para as grandes multinacionais. Outra vertente era a produção de cópias e derivados legais ou não de produtos ocidentais. Lembremos há alguns anos as guerras de patentes e a luta contra a contrafação. Também existe a produção, sob marca chinesa, de produtos baratos e de má qualidade, estes têm circuitos próprios no comércio internacional e a nível local (a “loja do chinês”). Porém, mais recentemente as empresas chinesas implantaram-se de forma autónoma em sectores de alta tecnologia. Uma empresa chinesa pretende (e está a caminho) ser a nº1 nos telemóveis, uma outra domina o mercado de drones não militares, a indústria automóvel chinesa está a reforçar o seu lugar na transição para a mobilidade elétrica, a lista continuará. Uma das informações que ficou aquando da recente visita de Lula da Silva à China, é que esta é hoje o maior parceiro económico do Brasil.

A visita do presidente francês (dizem as más-línguas que para vender perfumes, malas e alta-costura) e da presidente da União Europeia, é um sinal do peso económico e político da China que, entretanto, acaba de perder o título de país mais populoso do mundo para a Índia. Lula explicou o sucesso económico da China pelo facto de nos últimos anos não ter promovido guerras (não é inteiramente verdade). De facto, a China tem a segunda maior despesa militar do mundo (não é preciso muito esforço para perceber quem é o primeiro) e, em percentagem do PIB, estaria próximo da média da UE, sendo mais alta que a portuguesa. O sucesso é, de qualquer forma, um sucesso capitalista baseado primeiro em baixos salários e dumping social e, mais recentemente na inovação e agressividade económica.

Segundo Lenine a principal característica do imperialismo seria a exportação de capitais, mas será que a China atual o faz? Comecemos por coisas mais pequenas. A DJI (a tal dos drones) comprou uma das empresas mais prestigiosas da fotografia, a Hasselblad. Não é uma grande empresa, mas permite-lhes afixar uma marca de prestígio nos seus produtos mais caros. Em Portugal todos sabemos da compra da EDP pela empresa estatal chinesa de eletricidade. Estamos a falar de muitos milhões. Voltando à Suécia e a empresas de prestígio, a Volvo que chegou a pertencer à Ford, é agora propriedade da Geely, gigante automóvel privado chinês que, provavelmente, vai ser um dos vencedores da transição para os carros elétricos. A China é o maior fornecedor da Europa e o seu terceiro maior cliente. Não por acaso, tem vindo a adquirir uma posição dominante nos portos europeus. Porém é em Africa que o capital chinês mais se faz sentir, está presente em todos os sectores, das minas à energia, da agricultura às telecomunicações. As queixas são de práticas laborais e ambientais bárbaras que fazem as empresas europeias e americanas parecer santos ecologistas.

A ideia de que existe apenas um imperialismo, o americano, não tem, nem nunca teve fundamento

A ideia de que existe apenas um imperialismo, o americano, não tem, nem nunca teve fundamento. A teoria do imperialismo foi construída quando o imperialismo dominante, aquele em que o Sol nunca se punha, era o inglês. Este estava em disputa com o francês, o alemão (1ª guerra mundial) e, mais tarde o americano. Um pequeno país como Portugal não deixava de ser imperialista, já que tinha as suas colónias, onde além do domínio político e militar, havia exploração económica. Hoje algumas empresas espanholas ou suecas produzem e vendem por todo o mundo. Empresas alemãs e japonesas produzem automóveis nos Estados Unidos, os gigantes coreanos têm não só fábricas na Europa, como fazem na Europa o desenvolvimento de produtos destinados a este mercado.

O imperialismo hoje é uma realidade muito complexa, países outrora dominados são hoje países imperialistas e, uma mesma economia, pode combinar as duas coisas

O imperialismo hoje é uma realidade muito complexa, países outrora dominados são hoje países imperialistas e, uma mesma economia, pode combinar as duas coisas. Uma economia decadente como a russa pode tentar salvar-se pela forma imperialista mais tradicional, a conquista militar. Curiosamente, essa tentativa de conquista, acabou por fortalecer militarmente o bloco oposto, com o alargamento da Nato, e por colocar a Rússia numa maior dependência da China.

Depois de uma época de fronteiras cada vez mais abertas, vive-se agora, um fechamento dessas fronteiras. O Brexit, as guerras económicas EUA/UE e o barramento dos refugiados já eram um sinal disso, a guerra da Ucrânia só o acentua. Não que alguma vez tenha deixado de haver guerra, mas esta parece ter consequências mais profundas. A guerra é também um sintoma de, ao longo de 30 anos a Rússia ter vindo a perder a parte externa do seu império (os países do Pacto de Varsóvia); da incapacidade da economia russa no seu desenvolvimento, mas também da incapacidade de, apesar de muitas empresas ocidentais terem participado na pilhagem dos restos da União Soviética, de integrar profundamente a economia russa na economia global.

O imperialismo hoje abre todo um novo debate, nunca teve um polo único, mas agora eles multiplicam-se. Os países europeus da “cortina de ferro” integraram-se facilmente (não sem problemas sociais) na economia capitalista mundial. Na Rússia os novos capitalistas são muitas vezes os antigos burocratas, mas a tendência é para que a sua presença no exterior seja sobretudo por meio da ostentação. A China parece ser o maior caso de sucesso, estando em curso a transição de uma economia de mão-de-obra barata e subcontratação, para uma economia de alta tecnologia e expansionista.

Coloca-se a nível teórico, e também prático, toda uma série de desafios sobre o imperialismo. A China será o caso mais complexo, mas também aquele que mais rapidamente muda.

Nuno Pinheiro
Sobre o/a autor(a)

Nuno Pinheiro

Investigador de CIES/IUL
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