Imperdoável

porMaria Luísa Cabral

12 de maio 2024 - 15:58
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É cansativo estar sempre a bater na mesma tecla mas se tem de ser, que o seja. Acabamos de celebrar 50 anos do 25 de Abril e isto não é saudosismo. Se precisa de nome, é gratidão.

Descemos a Avenida numa manifestação inequívoca da nossa vontade e esperança que num futuro próximo consigamos mais justiça social, mais emprego, melhores salários, reformas condignas, mais Escola Pública, mais e melhor SNS. A descida à Avenida foi isso mesmo, um grito revoltado e uma mensagem ao governo, à direita e à extrema-direita. Nós estamos aqui, atentos e decididos a defender o que conquistámos durante 50 anos. Soltámos a Grândola que há em cada um de nós, durante aquelas 4 horas comungámos a mesma esperança e vontade. Uma alegria indescritível, firmes, acreditando que é possível. Foi lindo, pá!

Havia cartazes para todos os gostos, com mensagens umas mais de luta, outras manifestando o júbilo inegável. Lado a lado, completando-se. Havia cartazes com a efígie do Salgueiro Maia, incontornável, um nome indissociável daquele dia “inicial, inteiro e limpo”. Mas não vi, e choro por isso, nenhum cartaz alusivo a Otelo, o grande estratega do 25 de Abril. É uma dor insuportável, uma ausência (um branqueamento até) intolerável.

O 25 de Abril resultou duma sucessão de acontecimentos e momentos todos igualmente importantes. A sua concretização ultrapassou tudo quanto os conspiradores podiam imaginar já que a componente popular não constava do plano militar definido. Mas há nomes e protagonistas que desempenharam um papel um pouco mais decisivo, militares que arriscaram um pouco mais, militares que claramente sabiam que, no caso do golpe não correr como previsto, acabariam na prisão, veriam as suas carreiras abruptamente terminadas. O Salgueiro Maia foi um deles, o Otelo foi outro. Naquele dia, o sangue frio de ambos, na rua rodeado pela multidão ou na escuridão do Posto de Comando, a temeridade de ambos mudou a história do país. São banalidades o que escrevo? Incomodo porque são banalidades ou porque mesmo sendo banalidades não as deixo morrer? Incomoda perguntar porque celebramos um e não os dois?

Há quem se justifique com o facto de Otelo ter vindo a ter, em anos subsequentes, um protagonismo político duvidoso esquecendo que ele pagou por isso com 5 anos de cadeia. Pagou, está pago. Esquecê-lo deliberadamente corresponde a pactuar com a direita e a extrema-direita as quais, em troca, nos brindam com a eleição de um ex-membro do MDLP para a vice-presidência da Assembleia da República. Isto sim, é o grande incómodo. Uma ignomínia.

Otelo começou a preparar a estratégia do 25 de Abril lá longe, no tempo da guerra na Guiné. Não foi de supetão pese embora o chamem de aventureiro. Como se fosse imaginável um golpe militar como o 25 de Abril feito por mentes frias e calculistas atrás de uma secretária. Ele soube pesar a dose de ousadia com a dose de conhecimento militar e não se deixou enredar em cálculos intermináveis de prós e contras, nem se deixou envolver por questiúnculas de carácter administrativo. Considerar esta atitude como loucura configura mesmo um insulto, almeja apoucar a figura. A omissão generalizada do seu nome nos media (por vezes intencional), nos discursos, nas cerimónias deturpa a verdade histórica, é intolerável. Tudo em vão. Sem a estratégia concebida por Otelo e sem a atitude destemida na sua execução, talvez hoje não houvesse lugar às comemorações dos 50 anos de democracia. Não o tendo honrado condignamente quando morreu, é tempo, pois, de o celebrarmos agora. É inútil alterar a história.

Maria Luísa Cabral
Sobre o/a autor(a)

Maria Luísa Cabral

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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