Submersos pelos debates entre os presidenciáveis e com a azáfama da quadra de Natal tendemos a esquecer uma notícia que surgiu sobre a mais que provável cessação da distribuição de jornais e revistas a boa parte do país interior. A notícia é assustadora e muito preocupante. Imaginem-se a viver numa zona do interior e, subitamente, deixarem de ter acesso a um jornal ou a uma revista. Não está em causa, nestas circunstâncias, saber que tipo de jornal ou de revista. A única coisa que realmente importa ter presente é que esse desaparecimento agrava o isolamento das populações do interior já massacradas por todo o tipo de supressões: a assistência na saúde que é insuficiente, ou o balcão dos CTT que fechou, ou a caixa multibanco que não existe ou o balcão de um banco que foi desactivado. As populações insurgem-se, sem resultados práticos. “As pessoas não podem ser penalizadas em função do sítio onde vivem “ (João Ferrão, Expresso, 26 Dez 2025). O poder político não está interessado em resolver estas “minudências”, nem mesmo estando em causa a participação cívica. A loja ou o quiosque que asseguravam a venda dos periódicos, eram pontos de encontro social. Não se trata apenas de ir comprar o jornal, trata-se sim de encontrar alguém e trocar umas palavras, comentar as últimas da freguesia, discutir notícias que chegam da capital ou da vila mais próxima. É o sentido de comunidade que se extingue, num ápice a identidade esfuma-se. Se o poder político não soube ou não quis resolver a falta de um banco ou de um balcão dos CTT, por que razão se iria agora importar com um facto “menor” que é o eliminar essa fonte de alguma luz e esperança que os jornais diários, nacionais ou regionais, proporcionam. Durante a ditadura a imprensa local teve um papel fundamental de esclarecimento e formação. Os tempos são outros, verdade, mas vale a pena tirar ilações dessa prática. O poder político central não deu sinais de intervir, mas o poder autárquico talvez possa fazer alguma coisa pelas populações que lhe são próximas. Com esforço, claro, e com uma boa dose de vontade e criatividade.
As câmaras municipais têm muito orgulho nas suas bibliotecas municipais, com razão. Elas representam um pólo cultural que (pelo menos) as escolas aproveitam. Disponibilizam livros e facilitam a utilização de computadores. Trabalham em rede, penetram em todo o território. Não é pouca coisa, testemunhar a procura que estes recursos têm constitui uma profunda alegria. As bibliotecas municipais como existem hoje simbolizam o 25 de Abril. Mas está na hora de escancarar as portas das bibliotecas a outro público, precisamente àquele que será marginalizado com a falta de jornais e revistas. É altura das câmaras dotarem essas bibliotecas de verbas mais generosas para aquisição de jornais e revistas que passariam a estar à leitura na zona de lazer das referidas bibliotecas. Custa dinheiro? Claro que custa, mas menos que um redondel num cruzamento viário; nem todas as bibliotecas disporão de espaço adequado, mas dar um jeito ao mobiliário, arranjar um cantinho, só exige criatividade; não podem ser muitos os títulos a adquirir por falta de verba, muito bem, seja feito um inquérito, tentem perceber quais são os títulos mais procurados; onde o problema será maior é nas freguesias, então, os serviços camarários podem fazer uma ronda diária e distribuir os periódicos mais populares. Os serviços camarários podem mesmo ter a iniciativa de negociar com os proprietários dos jornais conseguindo facilidades na aquisição. Há mil e uma maneiras de contornar o problema, a solução não será a melhor do mundo, mas desde que não permita o corte radical com o mundo exterior, já é positivo.
O digital não substitui o papel e quando o público alvo é idoso, vive sozinho, rural muitas vezes, impingir o digital é uma afronta. É preciso ser realista. Se o quiosque é um ponto de encontro social, para que diabo serve o computador?! Nem é bom referir os custos associados, desde a aquisição à manutenção, passando pelo conhecimento e domínio. Não, o digital não é solução. O caminho faz-se com uma intervenção do poder autárquico, disponibilizando verbas, buscando inspiração no antigo serviço de bibliotecas itinerantes da Gulbenkian. Nas pequenas povoações, as juntas de freguesia podem eleger uma loja, um café, como local onde serão deixados os jornais e revistas. Um trabalho que vai exigir o envolvimento dos fregueses, começará aí a dinamização que falta. Mas, sim, assegurar o acesso diário a jornais e revistas tem de integrar as preocupações quotidianas da gestão da biblioteca municipal. Ganhar esta luta contribui com uma enorme mais-valia para a coesão social, pode acordar consciências, a Constituição não é uma coisa vã, e repõe credibilidade nos serviços da biblioteca, torna-a imprescindível.