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A ideia radical de que mulher é gente

O feminismo surgiu como uma contraposição ao sistema, mas também como uma promessa de um outro mundo possível. Surgiu com a ideia radical de que mulher é gente!

Porque és menina/porque és rapariga/porque és mulher: a frase que, ao longo dos séculos, condicionou, e condiciona, o sexo feminino, nas escolhas da sua vida, perpetuando a ideia de papeis de género.

Os papéis sociais, atribuídos pela sociedade determinaram a vida de milhões de mulheres. Uma sociedade liderada por homens e para homens. O patriarcado.

O patriarcado é um sistema profundamente enraizado na cultura e nas instituições, com uma estrutura de crença firmada numa verdade absoluta e que se apresenta como se não houvesse alternativa. Um conjunto de discursos, eventos e rituais, em que na sua base está a ideia sempre repetida de haver uma identidade natural, dois sexos considerados normais, por oposição a sexualidades malditas, negadas ou ocultadas, sustentando-se numa diferença entre os sexos pela qual se espera manter certa a ideia de superioridade masculina e a de inferioridade das mulheres, baseando-se num sistema de privilégios e de desigualdade. A este associou-se a meritocracia, num sistema de compensações psicossociais do qual o argumento do mérito faz parte, onde o funcionamento meritocrático do patriarcado é visível: os homens são apresentados como melhores, mais capazes e mais competentes do que as mulheres pela própria natureza, pelo simples facto de serem homens. Colocando, assim, as mulheres em posições subalternas.

A nossa cultura celebra a ideia de as mulheres serem capazes de fazer tudo, mas não questiona a premissa deste elogio.

Fazer as tarefas da casa não vem pré-instalado nas vaginas. Cozinhar, varrer, lavar, aprendem-se.

Quem nunca ouviu a célebre frase: “o meu marido ajuda-me com as tarefas de casa”? Está de tal forma enraizado que raramente damos tempo a essa reflexão, sem nos lembrarmos que a cada vez que essa frase se repete, estamos a perpetuar a ideia de que essas tarefas são unicamente femininas.

É recorrente ouvir que o feminismo é coisa do século XX e que se encontra desatualizado. Que devemos ser humanistas. Muito bem, os direitos das mulheres são Direitos Humanos, mas não podemos esquecer de que partimos de pontos de partida bem diferentes. Seria a escolha de uma expressão vaga negando a especificidade e particularidade do problema de género. Uma maneira de fingir que as mulheres não foram excluídas ao longo da história. Seria negar que a questão de género tem como alvo as mulheres, que o problema não é o facto de se ser humano, mas especificamente um ser humano do sexo feminino.

O feminismo surgiu como uma contraposição ao sistema, mas também como uma promessa de um outro mundo possível. Surgiu com a ideia radical de que mulher é gente!

Sobre o/a autor(a)

Deputada do Bloco de Esquerda na Assembleia Regional dos Açores. Licenciada em Educação. Ativista pelos Direitos dos Animais. Coordenadora do Bloco da Ilha Terceira
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