Homenagem póstuma a Kolontár e Devecser

porMarisa Matias

17 de setembro 2018 - 9:45
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Nunca esquecerei a imagem de um rio vermelho que rasgava a planície branca. Foi em Junho de 2011, quase nove meses depois da tragédia que atingiu Devecser e Kolontár, duas localidades deixadas ao esquecimento na Hungria.

Em Outubro de 2010, já no mandato de Viktor Orbán como primeiro ministro de novo, Devecser partiu-se ao meio cerca de 40 minutos depois de ter rebentado o reservatório que armazenava os detritos tóxicos de uma fábrica de alumínio das redondezas. Uma parte da localidade foi literalmente varrida por ondas tóxicas de dois metros de altura. As mesmas que, já com menos força, haviam de chegar a Kolontár e tingir as suas terras de vermelho. Na altura chegaram-nos algumas, poucas, imagens da tragédia das lamas vermelhas. Orbán presidia também à União Europeia nesse momento e nada podia manchar esse exercício, nem mesmo as mortes, as pessoas hospitalizadas ou as vidas destruídas pela tragédia.

No Parlamento Europeu tentámos várias vezes agendar o debate, mas de todas as vezes fomos silenciados pelo acordo de cavalheiros. Foi assim que decidi ir à Hungria e visitar as populações afectadas. Pedidos de autorização e burocracias atiraram a visita para o ano seguinte, mas quando chegámos era ainda tudo vermelho, tudo abandono, famílias inteiras doentes, tristeza. As autoridades receberam-nos com uma frieza atroz, deixando claro que não éramos bem vindos. Visitámos os sítios que nos permitiram visitar, fotografámos o que nos permitiram fotografar. Levaram-nos a uma fonte que tinha escapado à tragédia, dizendo que era uma área “protegida por Deus”. Depois do policiamento, pudemos ficar uns dias com algumas famílias, as que não tiveram medo de falar, mesmo que houvesse sempre um carro de polícia a espreitar à esquina. Alguns meses mais tarde, essas mesmas famílias vieram a Bruxelas e puderam contar a sua história. A Renáta Kovesi, o Janos Almási, a Lázlóné e o Lásló Molnár, o Otto Hodvogner, o József Varga, o Rajmund Erdélyi e a Éva Horváth abriram as portas das suas casas e deixaram que víssemos o que ninguém queria que fosse visto.

Estávamos no início de funções de Órban e era já por demais evidente a mão pesada. A visita de uma deputada do Parlamento Europeu aos lugares da tragédia foi vista como uma ameaça, havia que manter o silêncio sobre as vítimas das lamas vermelhas. Oito anos volvidos, foi sempre a piorar. Na Hungria violam-se direitos e liberdades fundamentais no funcionamento do sistema constitucional, na independência do poder judicial, na privacidade, na liberdade de expressão, na liberdade académica, na igualdade de tratamento de pessoas e famílias, na liberdade de religião, na liberdade de associação, no ataque a migrantes e a minorias, no ataque às mulheres.

O voto desta semana para sancionar o governo húngaro foi um voto pela defesa dos direitos humanos mais básicos e fundamentais. Aplicar sanções à Hungria não tem que ver com sermos mais ou menos críticos da actual norma vigente na União Europeia. Tem a ver com dignidade e o respeito pelos valores universais. Quando já nem isso tivermos, não nos resta nada. Também assim espero ter homenageado as famílias de Devecser e Kolontár.

Artigo publicado no “Diário de Notícias” de 16 de setembro de 2018

Edição corrigida às 21.20h de 17 de setembro de 2018

Marisa Matias
Sobre o/a autor(a)

Marisa Matias

Eurodeputada, dirigente do Bloco de Esquerda, socióloga.
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