Está aqui

Haiti aqui e depois

Depois do abalo sísmico e do choque mediático fica a paisagem chocante do capitalismo selvagem disfarçado de boas intenções.

O choque do terramoto passou. Aqui. E, como esperado, aquela geografia exótica desapareceu tanto dos mapas mediáticos como dos mapas mentais. Afinal, não era mesmo aqui. Não era tanto aqui como a crise indígena com os seus discursos repetitivos de desígnios nacionais inevitáveis e apelos costumeiros aos apertos de cinto desigualmente distribuídos. Não era tanto aqui como a bipolaridade do mundial de futebol, uma irritante vuvuzela que teima em zumbir constantemente aos ouvidos de todos/as, interferindo até com os discursos da crise. E, como nem a atenção se fixa face ao ritmo do caudal informativo saturante e descontextualizado nem a memória consegue ter o tamanho do mundo, a frenética reconfiguração do mapa mediático abafou a tragédia. O ecrã e o papel jornal não carregam muito tempo o peso das catástrofes aos seus ombros. Nós também não nos podemos dar ao luxo de o fazer. E, insistindo na metáfora do momento, o próprio excesso de informação e constante estado de choque dos noticiários acaba por parecer apenas um toque de vuvuzela zumbindo desgraças como um ruído de fundo desagradável que é a banda sonora da política que nos impõem.

Entendamo-nos: este esquecimento nunca é total. Ainda há algumas réplicas mediáticas feitas de imagens-destroços, como por exemplo as imagens de um palácio prestes a desmoronar e de alguém que tenta sobreviver. Mas não é a mesma coisa. São imagens-depois que já perderam o choque da novidade e já merecem pouco ênfase. Já não é agora e nunca nos banhamos duas vezes no mesmo choque mediático.

Mas para quem o Haiti é aqui e agora a tragédia arrasta-se ainda na doença e na miséria. Na rábula mediática do desastre encaixava-se perfeitamente o horror, a luta desesperada pela sobrevivência e a ajuda desinteressada vinda do mundo inteiro. A tragédia natural era um conto supostamente apolítico que deixava outras conclusões para a voz do senso comum. Só que a actual tragédia social é uma história política feita para além do que encaixa no mediatismo fácil e rápido: do mau aproveitamento das ajudas num país cheio de ONGs, à ineficácia do governo e da tutela internacional no socorro às populações, aos interesses geo-estratégicos que tentam ganhar espaço para novas dominações, aos negócios milionários pagos com os dinheiros das ajudas. E o que sobretudo não se encaixa nessa lógica é a resistência política do povo haitiano. As manifestações reprimidas fortemente contra o alargamento na secretaria do mandato presidencial de Preval e contra a eternização das forças militares da MINUSTAH. E a resistência dos agricultores haitianos que denunciam o arroz dessas ajudas comprado no estrangeiro e que volta a condenar as colheitas locais, que lutam contra as tentativas de impor o negócio do biofuel que condenaria toda a agricultura para produção alimentar à extinção, que lutam contra o poder da Monsanto que invade/ajuda o Haiti com 475 toneladas de sementes híbridas que vão impor o seu modo de produção, reduzir a biodiversidade, trazer um cortejo de fertilizantes e pesticidas sem os quais não resulta, criando assim dependência da multinacional e abrindo um novo campo de negócio.

Choque. Depois do abalo sísmico e do choque mediático fica a paisagem chocante do capitalismo selvagem disfarçado de boas intenções. Mas fica também a esperança na resistência que choca contra esta hipocrisia.

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Professor.
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