Guerras de Israel e a Guerra Santa

porNuno Pinheiro

17 de novembro 2024 - 20:56
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Não haverá paz sem o reconhecimento (ou o extermínio, como muitos pretendem em Israel) dos direitos do povo palestiniano, é isto e não a guerra santa que a comunidade deve procurar. Será a única forma de terminar o mais duradouro foco de conflito posterior à 2ª Guerra Mundial.

No século IV, enquanto o Império Romano caia, Santo Agostinho teorizava sobre a Guerra Santa. O Cristianismo, até aí, era basicamente pacifista, mas, face às invasões bárbaras, era preciso defender a cidade de Deus e o povo cristão. Cria-se a contradição e a ideia de que, mesmo de armas na mão, o cavaleiro cristão era sempre um homem de paz.

É esta ideia que leva às cruzadas, feitas para libertar Jerusalém e toda a Terra Santa do jugo dos infiéis (os novos bárbaros) e a devolver a mãos cristãs. As cruzadas duraram de 1095 (sendo Jerusalém conquistado em 1099) a 1291, com a queda de S. João de Acre, o último bastião dos cruzados. Mais perto de nós temos a reconquista cristã da Península Ibérica (que não foi 700 anos de guerra) que teve episódios de participação dos cruzados, alguns dos quais com grandes massacres da população muçulmana e moçárabe, ou seja, cristãos que viviam em zonas de domínio mouro (Lisboa 1147, Silves 1249).

A Guerra Santa também se podia dirigir contra cristãos heréticos, dos cátaros do século XIII, aos protestantes e católicos dos seculos XVI a XVIII e, obviamente contra judeus, perseguidos pelas multidões ou de forma mais formal pela Inquisição. A última das perseguições aos judeus, a dos nazis, foi a mais trágica, com milhões de mortos e milhões de deslocados, mas o seu rescaldo, parece ter incluído, talvez por má consciência, os judeus entre os filhos de Deus. Não é por acaso que Israel participa em campeonatos desportivos e na Eurovisão, como se fizesse parte da Europa.

No final do século XIX criou-se um movimento (Sionismo), com inegável componente mística, de “regresso” à “Terra Prometida” da Bíblia, muitos judeus migraram, em especial depois da 1ª Guerra Mundial, para a Palestina. Esta tinha feito parte do Império Otomano e era, desde 1918, dominada colonialmente pelo Reino Unido. A seguir à 2ª Guerra Mundial era necessário recolocar milhares de judeus expulsos e perseguidos na Europa, muitos eram sobreviventes dos campos de concentração. E foi aí que os britânicos e as Nações Unidas decidiram criar uma pátria para os judeus. Repartiram-se as terras entre judeus e árabes, tendo os segundos rejeitado essa repartição. Não admira, dado que estavam a ser expulsos das suas terras. O problema é que eram terras habitadas e, a instalação dos judeus, foi feita expulsando a população árabe das suas terras. A pátria palestiniana, prometida na altura, continua à espera.

Começa aí, em 1948, um conflito que nunca terminou, apenas tem fazes mais calmas e mais agudas como a que se vive agora.

O território hoje ocupado por Israel é muito maior do que o de 1948, sendo Israel o único país (agora acompanhado da Rússia) a invadir e anexar território de países vizinhos com tolerância da comunidade internacional. Se podemos explicar isso, em parte, com a influência económica e política de Israel nos Estados Unidos, não se pode deixar de pensar nesse apoio ou condescendência do ocidente como derivadas da ideia de Guerra Santa. Os árabes (palestinianos) são o outro, o infiel, o bárbaro contra quem a guerra é legitima. Os mortos, até um certo patamar, são aceitáveis e os movimentos de defesa dessa população são sempre terroristas.

Não há certeza sobre números, mas os alegados 40 mil, em contraste com os mil alegados nos ataques de 7 de outubro começam a ser vistos como desequilibrados. Nos EUA uma diferença entre Trump e Kamala está no ponto até ao qual é aceitável esse massacre (total, se for necessário para Trump). A vitória de Trump será a rédea ainda mais solta para os ultras de Israel. Os governos europeus, embora sem nenhuma ação real, dão sinais de acharem que esses limites foram ultrapassados.

A lógica da guerra santa só trouxe, desculpem o pleonasmo, guerra. A uma guerra santa opõe-se uma guerra santa contrária, não se pode entender de outra forma o peso do extremismo islâmico na Palestina. Claro que ninguém fala dos extremistas sionistas no poder em Israel. Este caminho não levará nunca à paz, só a mais décadas de guerra.

Não haverá paz sem o reconhecimento (ou o extermínio, como muitos pretendem em Israel) dos direitos do povo palestiniano, é isto e não a guerra santa que a comunidade deve procurar. Será a única forma de terminar o mais duradouro foco de conflito posterior à 2ª Guerra Mundial. 

Nuno Pinheiro
Sobre o/a autor(a)

Nuno Pinheiro

Investigador de CIES/IUL
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