A guerra não se faz apenas com armas

porMaria Luísa Cabral

20 de março 2022 - 22:52
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Depois da II Grande Guerra, da Guerra Colonial, ainda quentes as guerras nos Balcãs, no Iraque, na Síria ou no Afeganistão, desvalorizamos a vida e a civilização. O retrocesso em marcha de volta à Europa, ilusoriamente longe. A confiança desespera, saberemos reagir?

A guerra é a guerra, ninguém vai escapar. Os que verdadeiramente dão o corpo ao manifesto são os que mais sofrem mas todos os outros terão um preço a pagar. Qualquer declaração que tente minimizar todo o sofrimento e penúria só pode vir de alguém que tenta passar por entre os pingos de chuva ou, então, totalmente irresponsável. Vamos pagar, sim, mesmo neste fim de mundo ao Sul e ao Sol, o custo de vida vai disparar, as dificuldades virão por arrasto. Adivinhem lá quem vai sofrer mais. A juntar à penúria de uma vida agravada nos últimos anos, aqueles que têm rendimentos mais baixos, estejam ou não no mercado do trabalho, vão apertar o cinto para níveis impensáveis. Mas também a dita classe média (cuja composição varia conforme o analista) não escapará. Este largo sector da sociedade portuguesa deveria merecer-nos mais atenção.

Uma das bandeiras do actual Presidente da República durante a sua campanha eleitoral foi a do combate à pobreza. Bandeira mesmo, o combate terá acontecido de forma muito fugaz e discreto. A pandemia ajudou a explicar muita coisa que ficou pelo caminho, as intenções terão sido magníficas mas delas está o inferno cheio. A pobreza para nós portugueses é endémica. Vivemos com poucachinho, ambicionamos quase nada. Não se consegue extirpar. Há uns anos referiam-se as pessoas que tinham pensões muito baixas (uma vergonhosa, acrescente-se) como sendo os restícios das políticas do Estado Novo (deposto há mais de 40 anos). Sendo assim, pela lei da vida, já deviam ter acabado mas não, brotam da terra. Agora é porque os salários foram muito baixos, logo, os descontos baixos foram, a pensão não chega para comer o mês todo. Os governantes não compreendem esta equação tão simples. A ter existido, a dita campanha contra a pobreza não levou a sitio nenhum, flop. As instituições particulares, com ou sem apoio do Estado, vão providenciando qualquer coisita mas isto não vai lá com estas panaceias. Há pobres, sim, cerca de 25% da população portuguesa é pobre (isto é, tem um rendimento inferior ao SMN) e se o Estado acabar com os apoios, essa percentagem sobe para 40%. Que raio de sociedade somos nós incapazes de dar a volta a este problema?! Uma vergonha e uma humilhação.

A classe média faz equilíbrios sobre a corda bamba. Mês após mês, fica a ver para onde cai. E o problema agudiza-se quando a conta da saúde sobe (e sobe porque os apoios à saúde começam a estar muito mais do lado do privado do que do público). Agora com a subida generalizada dos preços (alguns talvez justificados, outros aproveitando a boleia), com o Estado a propor sucessivas linhas de crédito e grupos de trabalho, tudo de uma ineficácia e desnorte assustadores, vai-se enganando a clientela enquanto se vive numa espécie de vazio do poder que tudo permite. Até ao final do mês de Março (desde que o Governo tome posse), o filme não vai ser diferente, a pressão é quase inexistente e, mercê do tempo infinito e incontornável dos noticiários sobre a guerra, também pouco se ouve falar destes problemas concretos, imediatos, que nos afectam, que atingem os nossos familiares, amigos ou vizinhos. O Parlamento funciona? E o que dizem, o que discutem os representantes do povo? Como é que vamos viver? Calados, em casa, a encaixar o inimaginável, murro após murro?

O Governo que em Abril deverá estar em funções não poderá continuar a governar com base no improviso, na linha de crédito, no remedeio. Precisa-se de coragem para criticar, para adiantar propostas globais que ponham fim a tanta ajuda económica pequenina e insuficiente. Se a legislação do sector da Segurança Social precisa de ser revista, pois que seja. A política pequenina que sai ali da Praça de Londres não leva a nada, o próximo governante terá de ter outro perfil e enfrentar a máquina administrativa. O mesmo se pode afirmar do Serviço Nacional de Saúde, o quão ridículo se torna defender o que é indefensável. Não pela bondade e justeza dos princípios que enformam o SNS mas porque muitos dos seus executantes são maus profissionais, incapazes. No campo social e no campo da saúde, não é mais possível manter o estado em que se vive. A varridela tem de ser total, o nosso empenho é contra a pobreza e a fome que testemunhamos evitando que elas aumentem exponencialmente originando um conflito social de consequências imprevisíveis.

Maria Luísa Cabral
Sobre o/a autor(a)

Maria Luísa Cabral

Bibliotecária aposentada. Activista do Bloco de Esquerda. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990
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