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A "guerra" dos cobardes

As novas guerras do século XXI são "assimétricas", dizem as mais recentes doutrinas militares. "Guerra assimétrica" é o novo eufemismo para a guerra dos cobardes. O mais abjecto exemplo desta "guerra" ocorre em Gaza.

Cobardes são aqueles que do alto dos seus helicópteros e aviões de caça de última geração confortavelmente praticam o tiro ao alvo como se estivessem a brincar numa consola de videojogo. Massacram os que não tem para onde escapar. E ainda às vezes se dão ao trabalho de distribuir panfletos à população civil a dizer: "fujam!". É o paroxismo do cinismo: eles sabem que ela não tem para onde ir, porque eles não abrem as portas do gueto.

Cobardes são aqueles que usam a artilharia, os aviões, os tanques, os canhões dos navios para atacar as cidades mais densamente povoadas do planeta. Sabem que o inimigo não tem como responder: não possui artilharia, nem aviação, nem navios, nem tanques. A única hipótese que tem é o combate corpo-a-corpo. Por isso, os senhores da guerra evitam entrar nas cidades. É mais "sábio" usar a artilharia entrincheirada nos subúrbios.

Cobardes são os que bombardeiam escolas onde se instalaram abrigos para a população civil. Três escolas atingidas num só dia, a terceira massacrando dezenas de crianças. Não têm desculpa: na guerra do século XXI, a ONU dá as coordenadas de GPS dos seus abrigos. O exército "assimétrico" tem a obrigação de saber usar um GPS, não?

"Não pedimos desculpa", disse a porta-voz do Exército israelita, Avital Leibovich. A tese é que o tanque israelita que chacinou as crianças apenas ripostou a tiros de morteiro disparados pelo Hamas a partir da própria escola. O argumento é tão cobarde que nem merece grande comentário. Mesmo que fosse verdade, justificava-se massacrar crianças?

É que os cobardes que comandam esta mal-chamada "guerra" (devia chamar-se, oficialmente, carnificina) tratam os palestinianos como se fossem infra-humanos. Por isso, para quê ter cuidado com as mulheres e as crianças? Isso era coisa da guerra ultrapassada, a guerra "simétrica".

Mas os cobardes procuram ocultar a "assimetria" procurando equivaler a sua parafernália bélica com uns rockets caseiros aos quais eles chamam pomposamente "mísseis". Eles sabem que os rockets nem sistema de direcção têm, a maioria cai no deserto. São pouco mais que gritos de resistência, que provocaram, desde o início do ataque israelita, quatro mortos. Só o ataque à escola da ONU causou dez vezes mais mortes.

Mas eles dizem que têm o direito de se defender, "como qualquer nação faria".

O problema é que Israel não é "qualquer nação" em relação a Gaza: é uma potência ocupante. Gaza é um território ocupado, espoliado, estrangulado. Muitas comparações já foram feitas entre esta e a guerra do Líbano de 2006. Mas há uma grande diferença: naquela guerra, a população civil podia abandonar as aldeias da frente de batalha e procurar refúgio em zonas não atingidas pelas batalhas terrestres. Em Gaza, isso não é possível. Esta é a pior "guerra" assimétrica de todas.

Pensando bem, tem um precedente. Chamou-se gueto de Varsóvia. Viviam lá de 300 a 400 mil judeus. Não podiam sair. Estavam encurralados. Rebelaram-se contra a ocupação nazi entre Abril e Maio de 1943. Mas a guerra era demasiado "assimétrica". Mal armados, os heróicos judeus polacos do gueto foram esmagados. Morreram cerca de 13 mil. Estavam na sua terra, enfrentavam uma potência ocupante e lutaram até o limite das suas forças. Se tivessem rockets artesanais, certamente que os teriam usado.

Luis Leiria

Sobre o/a autor(a)

Jornalista do Esquerda.net
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