Greve geral: coração e alma

porManuel Afonso

09 de dezembro 2025 - 13:07
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A greve conta para fazer força, para construir um povo que age por si mesmo para ter controlo sobre a sua vida e o seu país. Por isso, o impacto da greve é ela não ser uma coisa que nos acontece, é luta de classes. Um povo a lutar. Em ação coletiva. Isto não acaba aqui, pelo contrário.

«A economia é o método, o objetivo é mudar o coração e a alma»
Margaret Thatcher

Luta de classes. E ainda há quem não acredite na luta de classes. É justo: há quem ache que o globo terrestre é plano. Mas as coisas são como são: o chamado «pacote laboral» do governo de Montenegro é pura luta de classes. Da classe dominante, claro. Em luta contra nós, claro, os trabalhadores. É uma guerra total, o tipo de medidas pela qual um governo das direitas está disposto a tudo.

Governo das direitas. Se dúvidas houvesse, este anteprojeto, que em vez de Trabalho XXI se poderia chamar «Escravatura XXI», define bem qual é a coligação que sustenta este governo: AD, IL e Chega. Pois está visto que é com eles que Montenegro conta para aprovar este pacote contra quem trabalha – e que é muito mais estrutural para o governo do que o Orçamento rarefeito a que o PS tristemente deu a mão...

Um pacote para as grandes empresas, que não beneficia os pequenos empresários. Então, esta é uma ofensiva de classe de um governo de classe: as direitas e as grandes empresas, contra o povo e quem trabalha. E sim: falamos de grandes empresas. As micro e pequenas são esmagadas pelos custos de contexto (energia, crédito, rendas), pela concorrência desleal dos monopólios e pela pressão dos mercados internacionais. Não é para os trabalhadores que foge a sua margem de lucro. Por isso, mesmo que ganhem algo a conseguir cortar um pouco nos direitos dos seus poucos empregados, acabam prejudicadas. Por cada euro que amealhem no corte de horas extraordinárias ou noutras medidas do pacote, os seus competidores de grande dimensão amealham muito mais, aumentando o fosso entre pequenos empresários e grupos monopolistas. E, sobretudo, as micro e pequenas empresas necessitam de um mercado interno saudável, coisa que não acontecerá com legislação laboral que encolhe o poder de compra...

Precisamente por haver emprego. Há quem pergunte (e com alguma razão) porque é que os grandes patrões e as suas direitas querem «flexibilizar» o mercado de trabalho num contexto em que há pouco desemprego e muita criação de empregos (embora seja exagerado falar em pleno emprego). Mas a questão é mesmo essa. Com pouco desemprego e uma inflação que, no que conta para a carteira dos trabalhadores (casa e supermercado) não dá descanso, a pressão é para a subida dos salários. Mesmo que grão a grão, mesmo com a contração coletiva quase desmontada, mesmo com a perseguição aos trabalhadores migrantes a ser usada para baixar os salários de todos... Mesmo com isto tudo, longe vão os tempos em que o patrão dizia: «Estás insatisfeito? Olha que há uma fila de gente à espera para ocupar o teu posto de trabalho!» Porque, hoje, não há. Por não terem o chicote do desemprego para nos fazer (não) comer e calar é que os donos disto tudo precisam de outras ferramentas de tortura. E se eles precisam, Montenegro está aqui para as oferecer e Ventura para as aprovar. Cada um a seu dono.

Estratégia. Mas os donos de Portugal não pensam só no dia de amanhã, planeiam o médio-longo prazo, estrategicamente. Sabem que pode vir aí um ciclo recessivo e querem poder despedir à vontade quando os investidores sinalizarem. O aumento dos despedimentos coletivos nos últimos meses já deu esse sinal. Mas eles querem mais, mais rápido e mais fácil. Sobretudo, querem acabar o que começaram no início do século e com o que avançaram no período da Troika: um regime laboral em que o salário não cobre as necessidades de reprodução da força de trabalho e em que (por isso mesmo) as empresas são locais ditatoriais, com trabalhadores isolados e deprimidos. Muitos dos locais de trabalho já são assim. Mas não chega: eles querem todo um país de joelhos. Há muito que desistiram de Portugal. O único modelo económico em que acreditam é: esmifrar o país, os seus trabalhadores, os seus recursos naturais, a sua vontade de futuro – a nossa vontade de futuro! Como dizia a sua ideóloga, Margaret Thatcher, não é só a economia (estúpido!). Eles querem o nosso coração e a nossa alma. Isso explica a guerra cultural que movem contra a greve, contra as mães trabalhadoras, contra a Esquerda. Querem obrigar-nos a desistir: de nós, de Portugal e do futuro. Como eles já fizeram.

A alma e o coração da greve. Por isso vamos à greve. Porque não desistimos. A Greve Geral deste dia 11, como todas, é também ela um instrumento. O objetivo é a alma e o coração: os nossos, dos trabalhadores. Os números da adesão serão importantes; as imagens nas televisões e nas redes também; parar os transportes e as escolas para gerar um efeito em cadeia é sempre impactante. Mas a greve conta para fazer força, para construir um povo que age por si mesmo para ter controlo sobre a sua vida e o seu país. Por isso, o impacto da greve é ela não ser uma coisa que nos acontece – porque a vemos na televisão, porque não temos comboio para ir trabalhar –, mas que fazemos acontecer. Só nesse momento deixamos de ser consumidores ou espetadores. Aí, é luta de classes. Um povo a lutar. Em ação coletiva. Isto não acaba aqui, pelo contrário. Todo o empenho até dia 11, para mobilizar; toda a força nos piquetes e nas manifestações, para fazer corpo. Mas o principal vem depois: a unidade, a continuidade, a sanha de vencer. Tudo o que fizemos no dia 11 de dezembro, mas em dobro. Porque não é nesse dia que a luta acaba, antes começa.

Manuel Afonso
Sobre o/a autor(a)

Manuel Afonso

Assistente editorial e ativista laboral e climático
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