A greve faz bem à vida

porNelson Peralta

09 de dezembro 2025 - 21:39
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Os responsáveis pelo imenso marasmo e desigualdade em que vivemos querem passar a ideia de que vivemos mal porque Portugal tem muitas greves. E, claro está, que a culpa é dos trabalhadores. Será assim?

Em vésperas da greve geral, chegou mais uma época em que os partidários do status quo se desdobram no ataque ao movimento laboral e ao próprio direito à greve. Os responsáveis pelo imenso marasmo e desigualdade em que vivemos querem passar a ideia de que vivemos mal porque Portugal tem muitas greves. E, claro está, que a culpa é dos trabalhadores. Será assim? Façamos então a pergunta: nos países onde há mais greves vive-se melhor ou pior?

Comecemos por ver os países onde há mais graves. O European Union Trade Union Institute disponibiliza os dados, possibilitando até selecionar e comparar diretamente países ano a ano, é ir ver: https://www.etui.org/strikes-map. O resultado é inequívoco: Portugal é dos países com menos greves.

Facilmente encontramos países campeões das greves onde o salário mínimo, o médio, a produtividade e a qualidade são bastante superiores aos de Portugal. Se os partidários do status quo e da desgraça estivessem certos, isto era impossível. Acontece que a existência de greves e luta laboral nesses países faz avançar a agenda trabalhista, garantindo uma maior distribuição de riqueza na forma de salário, e de salário indireto (com a existência de serviços públicos de qualidade).

Mas há uma pescadinha de rabo na boca. Os factores de base que permitem mais e maiores greves são também eles elementos que permitem uma maior redistribuição de riqueza. Em primeiro lugar, mais contratação coletiva, uma das formas que dão mais poder aos trabalhadores na sua relação com o capital. Outros fatores também pesam, nomeadamente a menor precariedade das relações de trabalho e os índices de sindicalização. Por alguma coisa, a direita e o PS, ao longo das décadas, trataram de enfraquecer estes três fatores: acham que para quem é, bacalhau basta.

Não por acaso, a produtividade aumentou, mas os salários não acompanharam essa subida. A fatia da riqueza que cabe aos trabalhadores diminuiu e a dos super-ricos aumentou. Vivemos na era da desigualdade. E há uma relação direta: a quebra na taxa de sindicalização corresponde a este período de divórcio entre produtividade e salário.

Não só as razões para a greve geral de 11 de dezembro são elas próprias de defesa da fatia da riqueza que cabe ao trabalhador (é ver aqui: https://www.esquerda.net/artigo/13-razoes-para-fazeres-greve-geral/96680), como o próprio instrumento de greve é um instrumento essencial para garantir essa fatia.

O status quo da desigualdade corrói a nossa vida coletiva. Agora o atual governo quer mudar a lei e restringir o próprio direito à greve. A greve é um dos principais instrumentos para equilibrar os pratos da balança de uma relação desigual entre trabalho e capital. Mas é também um exercício de liberdade: o trabalhador decide não exercer as suas funções em nome de um bem coletivo , prescindindo do direito à remuneração. A direita quer retirar essa liberdade.

Lembram-se daquela anedota de que a esquerda quer proibir tudo? Olha, é mesmo a direita que quer proibir a greve. Pois, se querem proibir é porque é mesmo boa.

Nelson Peralta
Sobre o/a autor(a)

Nelson Peralta

Biólogo. Dirigente do Bloco de Esquerda
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