Foi surpreendente. Vi sindicalistas empenhados na mobilização surpreendidos pela positiva; outros, em setores onde o movimento foi mais inicial, animados pelas possibilidades que se abrem. A luta não é um dia, é um caminho.
Foi rápida a tomada de consciência. Sobre o Pacote Laboral e sobre o que significa, mas sobretudo sobre as intenções do governo e a noção de que dali não vem nada de bom. No trabalho, tal como na saúde e na habitação. O que se sentiu, nos sectores que realmente pararam, foi uma enorme insatisfação não só com o que aí pode vir, mas com a vida presente. O custo de vida, o preço da casa, o medo de uma vida dura que só muda para pior. A raiva.
É isso que explica as enormes manifestações populares, muito além dos sindicatos, sobretudo em Lisboa. Há uma raiva guardada no povo.
É cedo para dizer que o ciclo mudou. Isso depende, sobretudo, da continuidade da luta nas ruas, mas também de quem se opõe ao Pacote Laboral manter a pressão alta. Mas há uma coisa que ficou clara. A oposição à política da AD, no trabalho e não só, é maioritária e alcança inclusive a base dos apoiantes do governo. De quem o apoiou no Orçamento, o PS, e de quem o apoia em tudo o resto, IL e Chega. Houve estudos de opinião a demonstrá-lo, mas são as piruetas de Ventura e o desespero do deputado Frazão que o deixam evidente. Estão contra o povo e têm medo que lhes caia a máscara.
O povo não é parvo. Não é só o "povo de esquerda" que está disponível para lutar por uma vida justa. Por isso não há inevitáveis. O Pacote Laboral pode cair. E podem cair as inevitabilidades que a comunicação social empresarial nos quer vender. As presenças da extrema-direita na segunda volta presidencial ou, a prazo, no governo não têm de nos ser impostas. Eles podem ser derrotados. É essa a grande lição da Greve Geral. É possível fazer povo pela casa, o salário, o futuro. Mudar de Vida. Não é fácil, nem automático. É preciso ter unhas para tocar guitarra.
A luta começa agora.