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As grandes causas das grandes superfícies

Eis que o Natal se aproxima e com ele as campanhas publicitárias das grandes superfícies que instigam em nós a obrigação moral de ajudar quem mais precisa. Podemos ajudar sem grande trabalho como se quer num mundo capitalista: basta comprar papel de embrulho ou um CD no supermercado mais próximo.

Este Natal, podemos associar-nos a grandes causas de várias formas seja através da aquisição de embalagens para os presentes, seja com o novo CD de uma personagem do reino animal vestida de mulher sexy, seja comprando senhas de comida na caixa do supermercado.

Na verdade, estas campanhas não passam de um tremendo engodo: o que move estas grandes superfícies é o aumento dos lucros e a possibilidade de parecerem socialmente responsáveis e não a imensa preocupação com as desigualdades sociais. As grandes superfícies estão-se bem marimbando para os probrezinhos – são vários os relatos indicando que os supermercados derramam intencionalmente lixívia ou outras substâncias sobre o lixo para garantirem que os produtos não são utilizados pelos tais probrezinhos.

No entanto, as grandes superfícies sabem que, por altura do Natal, as pessoas fazem compras; sabem que a época apela a que se pense nos outros; sabem que há crise e gente com fome. E sabem que podem usar esta conjuntura a seu favor, fomentando nas pessoas a responsabilidade moral de ajudar e tornando-a compatível com o capitalismo: para ajudar, basta comprar!

Por outro lado, há um perverso aproveitamento das grandes superfícies da genuína boa-vontade das pessoas, revertendo-a a favor dos seus lucros.

Veja-se o exemplo de uma campanha de recolha de alimentos decorrida recentemente: as prateleiras esvaziam-se de produtos que são vendidos ao preço normal, em supermercados que não contribuem com um único cêntimo para a dita campanha. Como prémio, aparecem nas reportagens de televisão entre grandes loas à capacidade de ajudar dos portugueses.

Entretanto, a dita grande superfície vendeu tudo o que tinha para vender, os trabalhadores fizeram horas extra não remuneradas enquanto o supermercado aumentou os lucros e teve publicidade gratuita em direto na televisão.

No final de contas, a exploração deste conceito do "ajude a ajudar" parece ser uma galinha dos ovos de ouro para as grandes superfícies: aumentam lucros, a marca sai bem na fotografia e os donos ainda podem participar depois em cerimónias com gente importante e também muito caridosa.

Mas por muitas campanhas que façam, não esquecemos de quem são as principais fortunas do país. Não esquecemos os impostos que deveriam pagar. Não esquecemos os baixos salários e a precarização a que sujeitam os vossos trabalhadores.

Por muitas campanhas que façam, sabemos que defender as pessoas significa fazer escolhas: Estado Social ou caridade. E não há dignidade na vossa caridadezinha.

Sobre o/a autor(a)

Ativista contra a precariedade. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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