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A grande farsa do Orçamento

PSD e Governo não se querem comprometer, porque na verdade não ficarão por aqui.

Hoje começa a discussão na generalidade no Orçamento do Estado. O documento que há semanas traz o país em suspenso, na expectativa de que, finalmente, possamos perceber o seu impacto real nos nossos bolsos e, com isso, no nosso futuro a longo prazo.

Há dois dias fechou-se o primeiro acto desta grande encenação entre Governo e PSD. Ficámos todos ainda com mais incertezas, e razões para temer que piores dias virão.

Passou-se uma semana deste jogo do gato e do rato, com reuniões conjuntas e encontros secretos, documentos trocados por baixo da mesa, declarações públicas inopinadas, trocas de acusações, horas marcadas e adiadas, e tudo isto em directo e ao vivo. Governo e PSD tiveram um comportamento à altura dos concorrentes de um reality show televisivo actual. Com intriga e traição à mistura, muitos segredos e mexericos, alguma tensão, e regras que premeiam quem, com maior esperteza, consegue manipular os adversários e assim beneficiar a conta bancária. Ou neste caso, a sua imagem pública.

Só que neste caso depois da “verdade” revelada e do fumo branco do entendimento, as contas são muito pouco claras. Uma grande nebulosa paira ainda sobre este orçamento.

As negociações com o PSD saldaram-se em cerca de 477 milhões a menos do que o previsto, 390 milhões em manutenção de benefícios fiscais e perto de 87 milhões no IVA alimentar. Milhões que não vão deixar de entrar nos cofres do Estado, já que a meta do défice orçamental para 2011 se mantém inalterada em 4,6% do PIB. O “mix” de redução da despesa e aumento da receita, a receita que Teixeira dos Santos encontrou para recuperar estes 500 milhões, adia a clarificação deste assunto para a discussão na especialidade.

O mínimo que se exigiria neste momento era transparência e seriedade nas contas do Estado. Em vez disso, na foto final, o PSD, quis ficar de fora, e Pedro Passos Coelho não deixou arrefecer o acordo sem vir dizer que “o pior está para vir”. PSD e Governo não se querem comprometer, porque na verdade não ficarão por aqui.

O Governo tem de explicar hoje que sacrifícios mais irá pedir aos portugueses. Este é um Orçamento do Estado a prazo, e a contagem decrescente começa hoje.

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