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Geringonças por medida

António Costa apoia os entendimentos de Merkel e Macron, conservadores e liberais, no espaço da UE. Pelos mesmos dias, o primeiro-ministro aproveitou o debate do Estado da Nação para mostrar o amor assolapado que dedica à geringonça caseira.

António Costa apoia os entendimentos de Merkel e Macron, conservadores e liberais, no espaço da União Europeia. Pelos mesmos dias, pesem vários acordos com a direita política e económica portuguesa, o primeiro-ministro aproveitou o debate do Estado da Nação para mostrar o amor assolapado que dedica à geringonça caseira.

Interroguemo-nos. Que podem ter em comum a corrida armamentista para o exército europeu, personificada pela ex-ministra da defesa alemã Ursula von der Leyen,mais as credenciais austeritárias de Christine Lagarde,por um lado, e um programa de recuperação dos efeitos da troika traduzidas nas 'posições conjuntas', por outro lado, assinadas pelo PS e pelos partidos da esquerda? A resposta é óbvia para toda a gente: nada têm a ver, não se juntam entre si.

Se António Costa não só não se arrepende de ter assinado os acordos com os partidos de esquerda em 2015 como diz que o faria de novo em 2019, cabe perguntar o que pretende. Que é o poder, é claro, e nem o próprio naturalmente tem desconforto com o facto. Em face da política que seguiria a geringonça II foi adiantando que não se pode propor aos outros aquilo que são as suas linhas vermelhas… Ou seja, o eixo Macron/Merkel, ou outros que representem a hegemonia liberal e conservadora ameaçada pela ultradireita, esse pacto é desde logo uma linha vermelha do PS.

A social-democracia, a irmandade política a que pertence o PS, em vez de se reagrupar depois do colapso, contrariar o liberalismo económico que levou esses partidos ao desastre em grande parte da Europa, pelo contrário, segue na esteira dos liberais. Isso quer dizer menos Estado Social e mais exclusão e desigualdades em nome da “competitividade”. Esse campo político liberal e conservador tem blindado os tratados europeus para impor o capitalismo selvagem de todas as precariedades no mundo do trabalho e de todas as arbitrariedades com os imigrantes, como conhecemos há muitos anos.

O António Costa de 2015 ainda esboçou a ideia de alterações nas políticas europeias e meteu a cara às sanções com que a Comissão Europeia ameaçava Portugal.O António Costa de 2019, crente que manobra em duas frentes até um dia, voltou ao pelotão da frente das regras europeias sobre os défices que muito nos prejudicam.E desistiu de alterar quaisquer regras europeias. A necessidade de negociações com a União Europeia para relançar o investimento parece uma evidência mas é tabu. Isto,apesar da dívida pública poder voltar a ser a corda do enforcado, basta que alguém no BCE lhe dê um nó.

O Tratado de Lisboa e o resto dos tratados europeus, desta vez sem dúvidas pós troikistas, inscrevem-se como o cabeçalho do próximo programa de governo. Esta é outra linha vermelha do PS, decorrendo naturalmente da primeira.

Sabendo-se da forte oposição da Comissão Europeia a alterações nas leis de trabalho que incentivem recuperação de rendimentos de trabalho face ao capital acumulado, resta concluir que esta área laboral que já foi genericamente uma linha vermelha do PS nesta legislatura candidata-se a ser mais uma linha inultrapassável do PS.

Neste quadro, é difícil asseverar um reforço substancial do investimento público tendo em conta a emergência climática e despesas de coesão.Talvez essa fosse a linha vermelha mais flexível mas depende do presidente do Eurogrupo e da onda externa.

Não basta acenar com uma negociação pós eleitoral, falando em abstrato de linhas vermelhas. Respeita-se sempre a vontade de diálogo mas neste momento parece valer apenas para engodo. No entanto, as escolhas eleitorais, essas sim, vão ser as escolhas dos quotidianos estratégicos que temos pela frente, da nossa vida como povo.

As linhas de todas as cores que quaisquer forças democráticas proponham merecem o respetivo exame, todas as possibilidades devem ser vistas com minúcia, mas propaganda é propaganda, não custa saber isso e sorrir, desde que se avise alguém incauto.

Sobre o/a autor(a)

Dirigente do Bloco de Esquerda, professor.
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