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A gente ajuda, havemos de ser mais

O debate nestas eleições entre os partidos que têm exercido o poder é uma expressão muito clara da “crise crepuscular de civilização” de que fala Bensaid. É precisamente por outra civilização que se bate a Esquerda.

O mundo tem sido difícil de interpretar. A velocidade dos acontecimentos, a turbulência do poder e das resistências e as mudanças das narrativas sobre a realidade económica e política em que vivemos torna-nos, demasiadas vezes, contrariando a própria preposição marxista, mais a pensar o mundo do que a perspetivar a sua transformação. No nosso tempo, seis anos fazem a realidade dar uma volta de 360 graus. A crise financeira criada pelos especuladores fez, a partir de 2008, emergir uma narrativa que dizia que o neoliberalismo e o capitalismo contemporâneo tinham sofrido uma derrota ideológica. A crise colocava a nu a delinquência do atual sistema económico mundial e logo apareceram reuniões do G20 para acabar com os offshores e taxar as transações financeiras. Nessa altura, diversas correntes intelectuais anunciaram o “regresso das classes sociais” ou “a atualidade do marxismo”. Parecia clara a leitura desse tempo, mas não era. Depressa o problema do sistema financeiro se transformou no problema dos Estados e no da sustentabilidade das dívidas soberanas. A dívida invadiu-nos as casas, chantageou-nos a vida e funcionou como o melhor instrumento de saque e acumulação de capital das últimas décadas. Fomos apanhados desprevenidos.

Desse mundo em rápida aceleração dava conta Daniel Bensaid. Advertia-nos ele para o facto de que “o andamento do mundo, esse, não pára. A época é mais convulsiva e violenta do que nunca. Já não se trata de uma crise de crescimento mas de uma crise crepuscular de civilização. (…) Clamando que “o mundo não está à venda”, os manifestantes contra a mundialização imperial de Seattle, de Génova, mas também de Porto Alegre (cidade-símbolo na qual a esquerda trotskista do Partido dos Trabalhadores desempenhou nos últimos vinte anos um papel determinante), colocam a questão de saber em que espécie de humanidade queremos tornar-nos, e em que mundo queremos viver”. Perguntava e bem Bensaid: se o mundo não é uma mercadoria, que deverá então ser e que queremos nós fazer por isso?

O mundo que queremos e o que dele queremos fazer é também a questão que hoje se nos coloca. Em vários terrenos e esferas da intervenção social e política mas também nas eleições com as quais nos confrontamos. De facto, as eleições europeias estão aí à porta. Ou melhor, o que está aí à porta são as eleições para o parlamento europeu. A miséria desta União Europeia começa na sua própria estrutura institucional: é um organismo supranacional, com um papel determinante na condução política, financeira e económica de um continente, mas os seus órgãos mais decisivos não são eleitos diretamente por nenhum cidadão europeu. A recusa de uma Europa da tecnocracia financeira sempre foi um dos combates mais intensos da esquerda. É na defesa da Europa contra a União Europeia que se coloca hoje a luta política.

No parlamento europeu os deputados da esquerda foram sempre os únicos que realmente defenderam a Europa. Defenderam a solidariedade entre os povos em todos os domínios. Lutaram pela justa distribuição da riqueza no continente. Opuseram-se à participação da União Europeia na carnificina das guerras do imperialismo do nosso tempo e à legitimação da violência autoritária de regimes como o de Israel. Foi sempre a Esquerda que afirmou o direito à autodeterminação de todos os povos enquanto condição da própria democracia europeia. Defenderam o Estado Social universal e de qualidade em todo o continente, contra uma sociedade mercantil e contra a moral da caridadezinha. Combateram a destruição dos direitos do trabalho, marca histórica do movimento operário e popular europeu no século XIX e XX. E foram também os deputados da esquerda que sempre criticaram uma Europa Fortaleza, que faz dos seus mares cemitérios de imigrantes e das suas fronteiras marítimas locais de primitivismo protofascista.

A luta pela Europa que aqui fazemos em Portugal é por isso também a luta pelo mundo que queremos. Mas por cá estes temas interessam pouco aos partidos do centrão. Do PS só vemos o oportunismo de um Francisco Assis obcecado com um bloco central que arrase o país. E já dessa sinistra Aliança Portugal, a única coisa que sabe é que são insultados sempre que saem à rua.

O debate nestas eleições entre os partidos que têm exercido o poder é uma expressão muito clara da “crise crepuscular de civilização” de que fala Bensaid. É precisamente por outra civilização que se bate a Esquerda. E para esse nova civilização precisamos da gente que não vota e está desiludida com a política. De gente que tem sofrido na pele, todos os dias, a barbárie do capitalismo do nosso tempo.

Nas eleições europeias joga-se isso mesmo. A luta por quem é escravo contra o poder de quem nos quer continuar a escravizar. Nestas eleições, como nos combates que temos pela frente, precisamos desse pensamento livre que junta gente e faz a resistência. Como cantava Zeca depois de quase cinquenta anos de obscurantismo fascista e de repressão autoritária, não há nenhuma razão para temermos. Traz outro amigo. Venham mais cinco. A gente ajuda. Havemos de ser mais.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo e investigador
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