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A gambozinização em curso

António Costa disse ao país que o bloco central é um gambozino. E logo Rui Rio se juntou a António Costa e à gambozinização do bloco central.

António Costa disse ao país que o bloco central é um gambozino, daqueles que os crédulos ingénuos procuram de noite sempre em vão. E logo Rui Rio se juntou a António Costa e à gambozinização do bloco central. Na negação de si próprio, o bloco central quis-se afirmar.

Não deixa de ser estranho o afã de Costa e de Rio na negação do bloco central. Se é tão gambozino, para quê perder tempo a garantir que é mesmo só gambozino? Só vejo uma explicação: no jogo político que protagonizam para os seus eleitorados, Costa e Rio querem pressionar-se e querem pressionar os partidos da esquerda e da direita, respetivamente. Não podem, por isso, assumir a aproximação como cenário político. É a tática da negação como instrumento da estratégia da afirmação.

a tática da negação como instrumento da estratégia da afirmação

A verdade é que, desde 2019, a correlação de forças no parlamento e a orientação dominante no PSD alentaram quem quis um PS livre de negociações à esquerda. A isso ajudou também quem descartou a necessidade de acordos escritos entre o PS e os partidos de esquerda. O regresso da tese do partido charneira foi, na verdade, o regresso do partido rendido ao bloco central. Porque António Costa – e toda a gente – sabe que é mirífica a ideia de que o PS governe negociando á direita umas coisas e à esquerda outras. Isso é mero jogo político, habilidade politicamente desvertebrada.

Foi esse gambozino que acabou com os debates quinzenais com o Primeiro Ministro

Eis-nos, pois, diante de um gambozino especialíssimo: ele existe. Foi esse gambozino que acabou com os debates quinzenais com o Primeiro Ministro, foi esse gambozino que mais que duplicou o número mínimo de subscritores de uma petição popular para que ela seja debatida em plenário da Assembleia da República, foi esse gambozino que decidiu que todos pagaríamos o buraco do BANIF e do Novo Banco sem ficarmos com a administração dos ditos bancos, foi esse gambozino que decidiu, em lei, dificultar as candidaturas dos demais partidos às autarquias locais, é esse gambozino que trava qualquer iniciativa para tirar das leis do trabalho as normas humilhantes dos trabalhadores.

A estridência do PS no anúncio da vontade de querer agora os acordos à esquerda que rejeitou há um ano vai de mão dada com a estridência da qualificação do bloco central como um gambozino. Mas a indisfarçável inclinação do PS para se entender com Rui Rio no essencial anuncia que é o tal acordo à esquerda que o Largo do Rato vê realmente como gambozino.

Artigo publicado no diário “As Beiras” a 1 de agosto de 2020

Sobre o/a autor(a)

Deputado e Vice-Presidente da Assembleia da República. Dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.
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