É verdade que as conferências entre os Estados sobre as questões climáticas são sempre uma desilusão, que o lóbi da economia do carbono é poderosíssimo e que as ameaças continuam (veja-se o ressurgimento do discurso negacionista, frequentemente encoberto com a defesa da “incerteza científica”, e a vitória de Trump, o seu mais poderoso representante político). Mas há também o outro lado. O movimento pela justiça climática tem sabido estar á altura (há uma nova marcha por todo o mundo já no dia 29), há acordos internacionais que têm como objetivo reduzir as emissões de gases com efeitos de estufa (o último, ratificado por Portugal, é o de Paris) e 2016 foi o ano em que até o investimento privado global em energias renováveis ultrapassou o investimento privado em energias fósseis (petróleo, gás e carvão) e nuclear. Ou seja, ao mesmo tempo que se multiplicam as ameaças, há coisas que estão a mudar.
Portugal tem feito um esforço muito importante para esta transição energética. Paradoxalmente, mantém sobre a prospeção e exploração de hidrocarbonetos (petróleo, gás e carvão) um quadro jurídico atrasado e obsoleto, que vem ainda do cavaquismo, e que torna mais fácil a concessão deste tipo de exploração do que o investimento em energias renováveis. Ora, seria um contrassenso manter estas leis e permitir novos furos em Portugal para explorar este tipo de combustíveis. Mesmo que no nosso país existissem explorações comercialmente relevantes (e é difícil acreditar nesse cenário), apostar neste tipo de energia seria um sinal errado e em contraciclo com o que devemos fazer.
A história global da prospeção e exploração de hidrocarbonetos é, como se sabe, uma história negra, feita da desconsideração pelos impactos sociais e ambientais (a interferência e alteração dos ciclos naturais, a inevitável poluição difusa e crónica com consequências na saúde das populações) e pela destruição das economias locais (a agricultura, o turismo ou a pesca desaparecem para serem substituídos pela economia da exploração dos hidrocarbonetos). A economia do carbono foi, além disso, capaz de gerar ao longo de décadas uma poderosa rede de influências políticas, responsável pela interferência em processos democráticos, por guerras e ocupações – alguém ignora a ligação entre a industria petrolífera e a corrupção global?; alguém se esqueceu do Iraque?
Não precisamos de fazer parte deste filme. As reservas mundiais conhecidas de hidrocarbonetos estão a esgotar-se. O futuro, nomeadamente o de Portugal, não é andar sofregamente a ver se, mais fundo na terra, ainda se encontra uns restos de petróleo, de gás ou carvão, sempre menores e sempre de mais difícil extração e portanto de consequências ambientais muito mais complicadas. Os furos ao longo de toda a nossa costa não têm sentido e a sua autorização deve ser impedida, como muito bem propuseram em conjunto o Bloco e o PAN na semana passada. O nosso futuro não é voltar ao passado. É apostar noutro tipo de energias e contribuir para mudar de paradigma.