Fratura social no Douro

porPedro Soares

10 de maio 2012 - 0:24
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Longe das grandes áreas metropolitanas e dos centros do poder, a crise social é uma realidade. A fome existe no Douro, como quando o desemprego e os salários em atraso fustigam as maiores concentrações industriais do país.

O Douro está a tornar-se numa imensidão de produtores em agonia. São 35 mil explorações para cerca de 43 mil hectares, distribuídas por mais de 140 mil parcelas. A grande maioria tem menos de 1 hectare de vinha e a imagem das grandes quintas corresponde a menos de 2% das explorações. Nos últimos anos a liberalização do mercado criou dificuldades e o agravamento da situação está a lançar milhares de produtores na miséria. As consequências são notadas na crise social que alastra na região e na tendência para que a propriedade comece a concentrar-se nas mãos das grandes casas exportadoras.

A Casa do Douro era a entidade reguladora, constituída pela associação dos produtores. Decidia sobre o “benefício”, a quantidade de vinho a ser transformado em vinho do Porto, comprava produção em anos de excesso e colocava-a no mercado em anos de escassez. Defendia a produção e procurava que houvesse equilíbrio nos preços pagos pelo comércio à viticultura.

Desde os anos 90 que esta organização da produção começou a ser desmantelada. Primeiro foi o estrangulamento financeiro. Os governos do PSD e do PS retiraram-lhe a generalidade das funções públicas que lhe conferiam relevância e atribuíram-nas ao Instituto do Vinho do Douro e do Porto (IVDP), sob orientação do governo. Nos últimos meses, a ministra da Agricultura e o seu secretário de Estado “queijo limiano”, ambos do CDS-PP, aceleraram este processo, nomeadamente com a nova orgânica do IVDP.

A liberalização, como sempre, significou poder total para quem está no topo desta cadeia de valor – o grande comércio. Com a Casa do Douro desmantelada, esmagam os preços na produção e deixam ficar nas adegas cooperativas milhares de pipas, para forçarem a baixa do preço. Os pequenos viticultores não conseguem suportar os aumentos dos custos dos fatores de produção, endividam-se e desesperam.

Longe das grandes áreas metropolitanas e dos centros do poder, a crise social é uma realidade. A fome existe no Douro, como quando o desemprego e os salários em atraso fustigam as maiores concentrações industriais do país. Os sistemas de Segurança Social são débeis, como é tradição, e não valem a pequenos agricultores na iminência de perder a terra e de ficarem com um lastro de dívidas ao banco. O país precisa de conhecer este drama, por cima das imagens turísticas de um Douro património da humanidade. Não podemos deixar calar a fratura social que cava fundo nas terras do Douro.

Pedro Soares
Sobre o/a autor(a)

Pedro Soares

Docente universitário IGOT/CEG; dirigente da associação ambientalista URTICA. Dirigente do Bloco de Esquerda
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