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A fragmentação da direita

Qual a melhor forma de explorar as contradições de um PS que, apesar de se manter confortável nas sondagens, tem no horizonte sinais de crise? Eis a grande motivação da direita.

A direita fervilha. Santana Lopes está a criar um partido, movimentos como a Democracia 21 e a Iniciativa Liberal podem ir no mesmo sentido e a liderança de Rui Rio é contestada. PSD e CDS vivem da promessa de regresso rápido ao poder e não está a ser fácil navegar entre as disputas que misturam ambições pessoais e reais divergências táticas. Qual a melhor forma de explorar as contradições de um PS que, apesar de se manter confortável nas sondagens, tem no horizonte sinais de crise? Eis a grande motivação da direita.

A direita compreende que em alguns dossiês os entendimentos à esquerda estão comprometidos. É o caso dos aumentos para os funcionários públicos e o défice zero, das alterações da legislação laboral contestadas pelos trabalhadores, da discussão sobre as alterações na Lei de Bases do Serviço Nacional de Saúde e sobre a política para o setor, do aumento do investimento público em áreas essenciais como os caminhos-de-ferro, da contagem do tempo de serviço dos professores congelada no período da Troika.

À medida que a legislatura se aproxima do fim menor é o espaço para as manobras de cosmética. O governo nomeou Maria de Belém para liderar a revisão da Lei de Bases do Serviço Nacional de Saúde e evitar as ruturas que se impõem com um setor privado predador do financiamento público. Esta intenção está a ser contestada pela enorme reação dos profissionais do setor e dos utentes exigindo uma clarificação de políticas e compromissos.

Entre manifestos e petições, muitos cidadãos combatem o esquema perverso que coloca o privado e o público em concorrência por uma mesma dotação, quando o governo não investe o suficiente na manutenção de equipamentos, na contratação de profissionais e nas carreiras do setor público. Degrada o SNS e facilita a proliferação de hospitais privados que conquistam áreas que eram oferecidas no público. Eis uma forma de atrofiar o SNS convertendo-o num sistema residual, de menor qualidade, dirigido às camadas mais pobres.

A direita compreende que este tipo de dilemas não será superado pela maioria que suporta o governo de António Costa e tenta, de formas diferenciadas, cavar essa fratura. Santana Lopes sempre disse que a “geringonça” não chegaria ao fim e mesmo que a profecia se venha a revelar errada, a reedição de um entendimento à esquerda após as eleições de 2019 não é provável. Bloco e o PCP teriam de fazer grandes cedências para tornarem viável o entendimento com um PS que faz um enorme sacrifício para não executar aquilo que lhe está no ADN e agrada à direita.

A atual fragmentação da direita é a expressão desta divisão da esquerda. Santana quer enfraquecer o PSD de Rio e evitar um Bloco Central, podendo chegar a deputado e a parceiro de uma coligação que venha a envolver CDS e PSD, formando um partido mais liberal e mais em linha com Macron e os Ciudadanos. Abandona a influência por dentro do partido que ajudou a criar e passa a jogar por fora num espaço que irá conquistar.

Num primeiro momento esta fragmentação da direita poderá ser um suplemento de alma para um PS que sempre gostou de aparecer como charneira do sistema político. É por antecipar isto que Marcelo critica as aventuras de Santana (e também porque o enfraquecimento do PSD lhe tira um instrumento para o projeto de reedição do Bloco Central). Mas poderá não ser necessariamente assim, por que hoje o espaço para as “terceiras vias” e para o jogo “ao centro”, que António Costa gosta de disputar, está muito condicionado pelas políticas de austeridade. E a prazo, quem poderá vir a ter problemas será o próprio PS, entalado entre uma direita mais diversificada e a restante esquerda que resiste.

Sobre o/a autor(a)

Professor universitário. Dirigente do Bloco de Esquerda.
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