A força bruta não há-de esmagar o Stop

porJosé Soeiro

22 de julho 2023 - 13:45
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Moreira está a exercer uma forma de necropolítica, de destruição e aniquilação de práticas, formas culturais e modos de existência coletiva que são, afinal, o que faz da cidade um organismo vivo. Saiba o Porto mostrar-lhe de que massa é feito.

O que aconteceu por estes dias no centro comercial Stop, com a polícia a selar os espaços de trabalho naquele espaço que há mais de 20 anos começou a ser ocupado por centenas de músicos e se tornou um dos mais vibrantes pólos de criação cultural da cidade, revela o pior do poder municipal que temos. Sem aviso prévio nem qualquer tipo de interlocução, Rui Moreira enviou a polícia para o Stop, fazendo desta um agente da sua decisão política, como aliás já fizera em bairros municipais. Com o cordão da PSP à porta, os músicos foram tratados como criminosos, obrigados a tirar à pressa, sob escolta policial, o material confiscado, essencial para trabalharem e sobreviverem. É miserável e impróprio de uma democracia

Como várias pessoas têm dito, o Stop foi-se tornando, ao longo dos últimos anos, a verdadeira “casa da música” do Porto, com mais de uma centena de salas de ensaio e estúdios de cerca de 500 artistas. É um exemplo do caráter do Porto, da sua vitalidade, de um modo orgânico de habitar e de fazer cidade, de uma forma de aglomeração e de resistência à margem dos planeamentos publicitários e da gentrificação reinante. O gesto da Câmara é, pois, uma ação de destruição. Como escreveu Luca Argel, aquela “tratou uma das suas maiores jóias culturais com o desprezo de bárbaros”, exibindo um uso “absolutamente desproporcional de força”.

Se há problemas com licenças e se é preciso obras para adaptar o espaço a regras de evacuação e segurança, agilizem-se soluções. Para isso mesmo, os músicos associaram-se. E existe até um projeto, submetido à Câmara, para a requalificação do Stop. É de evidente interesse público o apoio municipal, técnico e financeiro, a essa operação que permita manter os músicos naquele espaço, adaptando-o a essas exigências. A Câmara devia fazer parte dessa solução, mas fez o exato oposto: criou um problema grave e usou um método inexplicável de “choque e pavor”.

Noutras cidades do mundo, um espaço assim seria acarinhado, defendido e preservado. Paulo Cunha e Silva, o primeiro vereador da Cultura de Rui Moreira, fez uma conferência de imprensa na sala de cinema do Stop em 2015 e classificou aquele centro comercial como um dos "ecossistemas culturais mais interessantes" do Porto. Oito anos depois, a Câmara envia a polícia para esmagar à bruta, de um momento para o outro, esse precioso “ecossistema”, declarando em comunicado que está a tratar de um “processo que se arrasta há mais de dez anos”. A bota de Moreira não bate com a perdigota do falecido vereador.

Mas corresponde a um plano que salta aos olhos. O Bonfim está já pejado de hotéis de charme e não é a primeira vez que se utilizam pretextos legais para aniquilar projetos culturais naquela zona da cidade, como aconteceu com o Quiosque do Piorio. A rapper Capicua explicou que se trata de uma “jogada de mestre” que serve os apetites imobiliários que há muito querem açambarcar o Stop e todo o quarteirão, para torná-lo mais um lucrativo equipamento para turistas. O executivo municipal comporta-se, realmente, como um balcão de negócios ou um agente da Remax.

O executivo municipal comporta-se, realmente, como um balcão de negócios

Numa manhã, surpreendem-se os músicos com a PSP. Sem planeamento nem alternativa, precisando dos seus instrumentos e material, estes acabam por ter de retirá-los das salas, não sabendo se os poderão voltar a guardar lá, e não tendo como continuar a pagar rendas de um espaço que estão impedidos de utilizar pela Câmara e pela polícia. Esvaziado da sua alma e dos seus habitantes, o Stop converter-se-á num ápice - caso a mobilização da cidade não consiga reverter este processo - num lugar fantasma, criando as condições ideais para que um abutre imobiliário possa comprar os estúdios, investindo depois na sua reconversão turística (há anos que há quem fale do interesse de Mário Ferreira por aquele equipamento).

Na concentração que na passada terça-feira aconteceu frente ao Stop, várias pessoas empunhavam cartazes com uma paródia ao logotipo com que Moreira quis transformar a cidade numa marca comercial, onde em lugar de “Porto.” se lia “Morto.”. Infelizmente, é isso que está em causa. Moreira está a exercer uma forma de necropolítica, de destruição e aniquilação de práticas, formas culturais e modos de existência coletiva que são, afinal, o que faz da cidade um organismo vivo. Saiba o Porto mostrar-lhe de que massa é feito.

Artigo publicado em expresso.pt a 19 de julho de 2023

José Soeiro
Sobre o/a autor(a)

José Soeiro

Dirigente do Bloco de Esquerda, sociólogo.
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