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Fora dos radares voa-se tão bem

A arte da fuga não é só para quem quer. É para quem pode ou para quem deixa.

A arte da fuga é complexa, inacabada e Sebastian Bach está longe de ser o único que a recriou em notas. Olhando para elas, aquelas que são moeda com verso e reverso, a verdadeira arte de fugir com estilo e pouco rasto vive atestada de brilho-níquel e mais do que entregue ao poder financeiro. Entre a declaração não entregue e a que ficou omissa, entre a aritmética imaginativa na fonte e a engenharia financeira no tanque que lava branco, o "think tank" do poder. Entre o diz e o diz que disse. Não há SMS ou comentador político que lhe mapeie o rasto. 10 mil milhões de euros sem controlo do Fisco directos para offshores entre 2010 e 2014, foi já ao tempo; Álvaro Santos Almeida, candidato do PSD no Porto, a deslizar para a frente a pés juntos, uma questão de tempo. A arte da fuga não é só para quem quer.

É para quem pode ou para quem deixa. Na época áurea da troika que espremia o país até à última gota, 20 declarações relativas às transferências apresentadas por bancos - realizadas do nosso país para contas sediadas em paraísos fiscais - não foram controladas pela Autoridade Tributária e Aduaneira. Em causa, 10 mil milhões de euros a voar sem dono ou trela. Agora que o Ministério das Finanças encarregou a Inspecção-Geral de Finanças de averiguar o que se passou, a dúvida que esvazia os bolsos dos contribuintes é saber se o prazo de caducidade da liquidação do imposto já foi ultrapassado. Fica a ideia de que a falta de vergonha acompanha a dimensão do prejuízo. Fora dos radares, voa-se tão bem.

Da fuga para a frente perceberá o notável candidato independente do PSD à Câmara Municipal do Porto. Quando o partido lhe diz "corre que há abismo", precipita-se a deslizar para a frente. Álvaro Santos Almeida poderá sofrer de falta de visibilidade mediática, corre por fora e terá de encontrar um caminho por atalhos que contorne uma agenda política encostada à parte da Direita que também apoia Rui Moreira. Só isso justifica que abra as suas hostilidades dizendo que a cidade do Porto está nas mãos de "ex-comunistas e radicais de Esquerda". Mas mais imaginativo é pensar que o ex-quadro do FMI considere caminhar para vereador à custa de mais uma versão do Diabo que está para chegar. Para Passos Coelho, um plágio. Para Rui Rio, uma frustração. Para ganhar eleições, um suicídio. Foi apanhado a alta velocidade e desgovernado. Tudo leva a crer que nada disto seja táctica. É muito mais redondo, cabotino e serôdio: sair do FMI é fácil, difícil mesmo é tirar o FMI de dentro de si.

Artigo publicado no “Jornal de Notícias” em 22 de fevereiro de 2017

Sobre o/a autor(a)

Músico e jurista. Escreve com a grafia anterior ao acordo ortográfico de 1990.
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