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A fome das criancinhas

Enquanto permitirmos que Passos Coelho e Paulo Portas continuem a sua política de terra queimada, surgirão cada vez mais crianças a chegarem doentes com fome ao hospital, mais alunos a desmaiar nas salas de aula, mais mães a diminuírem o leite que dão aos bebés.

Raros são os dias em que não ouvimos falar, na comunicação social ou nas nossas redes de vizinhança, de famílias em dificuldades e de crianças com fome. Já sabemos que as crianças portuguesas são as mais pobres de 24 países analisados pela UNICEF e que os subsídios e apoios sociais atribuídos não são suficientes para reverter a situação de pobreza em que se encontram. Passos Coelho e Paulo Portas respondem com a redução dos abonos de família e dos subsídios sociais.

Ficámos também a saber que há mais de 10.000 alunos com fome nas escolas portuguesas. Uns desmaiam nas aulas, outros levam o pão servido ao almoço na escola para o lanche ou para o jantar que sabem não ter em casa. Jonet certamente aprova. Afinal, comer bifes todos os dias não é para todos. Passos Coelho e Paulo Portas respondem com um redondo não à proposta de pequenos-almoços gratuitos nas escolas.

Ficámos ainda a saber que chegam às pediatrias dos hospitais crianças doentes com fome e que mães sem dinheiro alimentam bebés de poucos meses com leite de vaca ou juntando mais água ao leite em pó para enganar a fome aos petizes. Passos Coelho e Paulo Portas respondem com mais cortes nos rendimentos das famílias e mais aumentos de impostos condenando-as a um sacrifício sem fim à vista e a uma vida sem futuro digno.

Ficámos a saber que cada vez mais crianças têm dificuldades em pagar os transportes para a escola e que milhares de alunos desistem todos os meses das escolas e universidades. Passos Coelho e Paulo Portas respondem com o corte nos passes sociais e com novas fórmulas, cheias de propinas e co-pagamentos, que coloquem as famílias e as crianças a pagar ainda mais pelos estudos a que hoje já mal conseguem aceder.

Não é portanto de admirar que com o aproximar da época Natalícia proliferem iniciativas para aliviar a fome dos miseráveis e das criancinhas. Das galas mais glamorosas patrocinadas pelas figuras da alta sociedade às iniciativas mais modestas das autarquias, associações ou até de cidadãos anónimos, há de tudo e para todos os estômagos. São cabazes solidários, jantares de Natal servidos em tendas improvisadas, brinquedos para o menino e para a menina, bancos alimentares, toneladas para quem já não resta solução senão estender a mão. No fim, fica o sentimento de dever cumprido, a convicção de que a caridade faz, de quem dá, melhor pessoa e melhor cidadão. Afinal, tudo se fez para aliviar a fome e o sofrimento das criancinhas.

Não quero aqui diminuir a grandeza do alívio que quem dá de si mesmo, do seu tempo e da sua vontade, traz a todos aqueles que precisam. Quero apenas lembrar que o Natal tem a mania de se fazer rogado e só dá ar de si uma vez por ano e que enquanto permitirmos que Passos Coelho e Paulo Portas continuem a sua política de terra queimada, de aprofundamento das dificuldades, da miséria e da fome numa teimosia de contornos sádicos, surgirão cada vez mais crianças a chegarem doentes com fome ao hospital, mais alunos a desmaiar nas salas de aula, mais mães a diminuírem o leite que dão aos bebés. Para reverter este ciclo, é necessário acabar com este governo e com este garrote troikiano. Só a solidariedade social e a justiça fiscal podem garantir que não sejam precisas galas e cabazes e bancos alimentares. Afinal, não queremos um país onde sejam necessárias pessoas que matem a fome às criancinhas. Queremos um país onde as criancinhas não tenham fome.

Sobre o/a autor(a)

Feminista e ativista. Socióloga.
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