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A fina-flor cavaquista entre o Panamá e o Funchal

Ilídio Pinho foi patrão de ex-ministros e bom cliente do offshore do Panamá. Segundo Rafael Marques, foi também testa-de-ferro de Isabel dos Santos na compra da EFACEC.

O nome de Ilídio Pinho é um exemplo de quem tem o privilégio de não pagar o que deve. Como noticiou o Expresso, Pinho e outros quatro membros do Conselho Superior da Fundação Ilídio Pinho abriram uma conta, em 2006, nas Ilhas Virgens Britânicas, um dos maiores offshores do planeta. A conta era controlada a partir do Luxemburgo por uma filial do banco suíço UBS, gerida em Portugal, entre outros, por João Costa Carvalho, administrador da Fomentinvest conjuntamente com Passos Coelho. O principal dono da Fomentinvest é Ilídio Pinho, e o rosto do grupo é Ângelo Correia, também do PSD.

Durante anos, Ilídio Pinho teve a proteção política necessária para acumular uma das maiores fortunas de Portugal. A sua fundação é uma típica coutada cavaquista, proclamando uma missão ligada à ciência e tecnologia, cultura e lusofonia. No regaço dos seus órgãos sociais juntaram-se ex -governantes com peso na banca e na regulação do sistema financeiro e fiscal, sobretudo ex-ministros de Cavaco Silva: Miguel Cadilhe (membro do Conselho Superior da Fundação em 2000), Tavares Moreira (consultor da Fundação), João de Deus Pinheiro (membro do Conselho Superior da Fundação entre 2001 e 2007), Couto dos Santos (membro do conselho de administração em 2000), Luís Valente de Oliveira (membro do Conselho Superior da Fundação) e ainda Jorge Neto, ex-Secretário de Estado do governo de Santana Lopes (membro do Conselho Superior da Fundação entre 2000 e 2004).

Mas a conta secreta de Ilídio Pinho nas Ilhas Virgens parece não ser o único artifício do empresário para fugir aos impostos. De acordo com a Conservatória do Registo Comercial Privativa da Zona Franca da Madeira, Ilídio Pinho e mais quatro membros da sua Fundação registaram ali, em dezembro de 2014, a Winterfell, empresa dedicada à "prestação de serviços de consultadoria financeira e de gestão". Pouco mais se sabe desta entidade com sede na Avenida Infante Sagres, no Funchal. A não ser que o seu nome coincide com o do veículo criado por Isabel dos Santos na compra da EFACEC, em outubro de 2015. O jornal Maka Angola diz tratar-se da mesma entidade, embora a empresária angolana assegure que a "sua" Winterfell foi registada em Malta, outro paraíso fiscal. A Winterfell que comprou a EFACEC é detida, de resto, pela Niara Holding, entidade detida por Isabel dos Santos com sede no offshore... da Madeira. Um denso novelo que não mereceu reparos das autoridades portuguesas ou angolanas.

Entre 2011 e 2014, os anos da troika, meio milhão de reformados perderam parte das suas pensões, penhoradas por ordem judicial. Deviam e perderam. O mesmo aconteceu com os salários e as contas bancárias de 150 mil pessoas, só em 2014. Deviam e perderam. Muito dos que ficaram sem emprego, depois de uma vida de trabalho, viram diminuído o seu subsídio e o seu último apoio, o RSI. Pagaram sempre e também perderam. O véu levantado pelos Panama Papers diz-nos muito da forma como vivemos e como perdemos sempre. O privilégio absoluto de não pagar impostos é a desigualdade que alimenta o sistema e os seus vencedores, Ilídios Pinho e os políticos público-privados que os rodeiam.

Sobre o/a autor(a)

Sociólogo, dirigente do Bloco de Esquerda e ativista contra a precariedade.
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