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Feminismo, para que te quero

Porque é que precisamos do Feminismo? Porque é preciso acabar com todas as discriminações e desigualdades. Porque é urgente erradicar a violência contra uma parte da população baseada no sexo com que nasceu. Porque exigimos as mesmas oportunidades, o mesmo respeito e a mesma dignidade que é concedida aos homens.

Apareceram um pouco por todo o lado e têm até uma página no Facebook. São mulheres sorridentes, supostamente independentes, informadas e realizadas que seguram cartazes onde se lê: 'Eu não preciso do feminismo porque' As razões que apresentam revelam de imediato que a conceção que têm do feminismo e da luta feminista é errónea e baseada em estereótipos perpetuados pelo paradigma paternalista ainda dominante na sociedade. Orgulhosas da sua condição de mulher, e ainda bem, afirmam não precisar do feminismo porque os homens das suas vidas as amam e respeitam, porque acreditam na igualdade e não na supremacia, porque gostam de cozinhar, limpar, coser e não precisam de ser libertadas das atividades que lhes dão prazer, porque não se sentem oprimidas pela sociedade, porque um assobio não iguala uma violação ou assédio, porque são confiantes, determinadas, bem sucedidas (seja lá o que isso for...), porque são fortes o suficiente para admitir que de vez em quando precisam dos homens, porque não são vítimas.

Estas afirmações demonstram a existência de uma enorme confusão em torno do feminismo e do que significa ser feminista. O feminismo não advoga a supremacia da mulher em relação ao homem nem a sua superioridade em qualquer campo ou atividade. Não pretende retirar direitos ou estatuto aos homens para os dar às mulheres. Não demoniza os homens e idolatra as mulheres. Não pretende criar diferenças no sentido oposto. Não defende a vitimização das mulheres.

O que move a luta feminista é a simples ideia de que qualquer pessoa, independentemente do seu género, seja tratada da mesma forma e tenha as mesmas oportunidades e direitos. Trata-se da defesa dos direitos das mulheres com base na igualdade política, social e económica.

Mas porque precisam as mulheres de ser defendidas, perguntarão as auto-intituladas anti-feministas.

Porque a igualdade entre homens e mulheres está ainda longe de ser alcançada. A desigualdade entre géneros é aliás gritante e nem precisamos tomar como exemplo as atrocidades cometidas contra mulheres em países em desenvolvimento. Também aqui, nas ditas sociedades desenvolvidas ou modernas, é vedada, às mulheres, a igualdade de oportunidades e a igualdade de direitos. O período de crise que Portugal e a Europa atravessa veio aprofundar ainda mas as desigualdades e o futuro não augura que se dissipem por magia.

Não será por algumas mulheres terem na sua vida, homens que as amam e respeitam, que podemos apagar os números da violência contra as mulheres. Só em Portugal, no ano de 2013, morreram perto de 40 mulheres vítimas dos companheiros, namorados ou maridos. Se existe também violência contra os homens? Existe pois, mas as mulheres continuam a ser as vítimas maioritárias na violência doméstica e no namoro.

Não será por algumas mulheres não se incomodarem com piropos ou assobios na rua, que podemos ignorar que são as mulheres as principais vítimas do assédio sexual. Na rua, no trabalho ou na comunidade a mulher, simplesmente porque é mulher, é sujeita a todo o tipo de manifestações que atentam contra a sua privacidade e dignidade.

Não será por algumas mulheres serem bem sucedidas no mundo do trabalho que podemos escamotear o facto das mulheres, na sua quase globalidade, continuarem a ganhar menos, a ter menos segurança no trabalho e a atingir menos lugares de topo do que os homens. A diferença salarial em Portugal entre homens e mulheres ronda os 18%. Quando se olha para níveis superiores de qualificação e sobretudo para quadros superiores a diferença sobe para 29%. Para trabalho igual, salário igual. É isto que defende o feminismo.

Não será por algumas mulheres fazerem caminho na política que podemos esconder a realidade de uma cultura machista e paternalista que condiciona a disponibilidade das mulheres e mina as suas hipóteses de ascensão a cargos de poder. A nível mundial, apenas 21,4% dos lugares nos parlamentos e 8% dos lugares executivos são ocupados por mulheres.

Não será por algumas mulheres gostarem de executar as tarefas domésticas que podemos fingir que para muitas, não se trata de uma escolha, mas sim da imposição de uma condição ancorada na separação de papéis de género. E sem efetiva liberdade de escolha não existe igualdade.

Não será por algumas mulheres viverem confortavelmente que podemos negar que apesar das mulheres corresponderem a metade da população mundial, representam 70% das pessoas a situação de pobreza no mundo. Como não podemos esquecer o tráfico e a exploração sexual perpetrados maioritariamente sobre mulheres. A mutilação genital feminina ou o casamento forçado de meninas, as violações em grupo na Índia ou os crimes de honra no Paquistão.

Porque é que precisamos do Feminismo? Porque é preciso acabar com todas as discriminações e desigualdades. Porque é urgente erradicar a violência contra uma parte da população baseada no sexo com que nasceu. Porque exigimos as mesmas oportunidades, o mesmo respeito e a mesma dignidade que é concedida aos homens. Nem mais nem menos. Apenas igualdade.

Sobre o/a autor(a)

Deputada e dirigente do Bloco de Esquerda. Professora universitária. Socióloga.
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