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Feira das vaidades

Se a gestão da Cultura sempre teve a tendência para ser um barco meio à deriva nos Açores, será seguro afirmar que o atual Governo Regional conseguiu afundar e embarcação.

Se a gestão da Cultura sempre teve a tendência para ser um barco meio à deriva nos Açores, será seguro afirmar que o atual Governo Regional conseguiu afundar e embarcação.

Depois da autocrática gestão de misoginia do Padre Ricardo, e da boa vontade de Brito Ventura, a tempestade perfeita estava criada para a chegada de Duarte Freitas.

Não nos esqueçamos de que pelo meio ainda contamos com duas secretárias, nenhuma delas particularmente interessada em Cultura, e esta última mais vocacionada para assuntos culturais. Seja lá o que isso for.

Alertou-se a secretária regional da Educação e Assuntos Culturais, e, mais tarde, Duarte Chaves, para a necessidade de não cometerem os erros do passado bem recente.

Escrevi acerca das dificuldades das e dos agentes culturais. Referi o património abandonado e as insistentes más práticas da divisão que o gere.

Procurei justiça para a nossa herança cultural, cada vez mais abafada pela instabilidade e pela ingerência.

Procurou-se dar tempo ao tempo. Talvez seja agora o momento. Talvez pudesse ser. Mas eis que, volvidos meses, nada muda, para nada mudar.

Foi publicado o apoio financeiro aos agentes culturais. Mais de um milhão de euros prometidos. Cantigas ao vento, ao som de uma viola de arame tocada por uma direção regional que pura e simplesmente não conta essa verba, e para poder contar com a mesma precisará de romper com a dívida 0 ou descativar ainda mais funcionários e promessas.

Resta saber qual dos Duartes sairá vencedor nesse embate.

Do património Baleeiro escrevi eu e, muito melhor, escreveu o diretor do Museu do Pico, Manuel Costa, em artigo publicado nos órgãos da comunicação social. Está entregue aos pensos rápidos para tapar uma hemorragia de Cultura que vai acabar com esta tradição que corre no sangue dos Açores, ainda que dentro da atual geração que a tenta a defender.

O edificado histórico parece estar entregue a si mesmo, e a quem o quiser explorar. Casos emblemáticos, como o do Santuário da Esperança ou o centro histórico de Angra do Heroísmo, dizem-nos que do Palacete Silveira Paulo, trabalho, pouco ou nenhum. Aliás, temos visto trabalho: em artigos, fotografias nas redes sociais, apresentações publicas de livros do diretor regional. Ou seja, imagem a mais, substância a menos.

E as pessoas? E o património? E a Cultura? Estarão na sombra de que Duarte? Ou será da Educação?

Assinalei anteriormente a infelicidade da secretária da Educação e Assuntos Culturais anunciar, em 2022, que os Açores não participariam na Feira do Livro, supostamente por ser muito caro e trazer pouco proveito para a Região.

Agora veio Duarte Chaves comunicar a participação na Feira de 2023, mas só com os Açores integrados no stand da Madeira. Parece que para o Governo Regional não há Cultura suficiente no arquipélago para lá ir representar a sua literatura sem ajuda. Serão laços de sangue?

A certeza é de que, neste momento, a Cultura vai a passo de Viola. E não é a da Terra, porque essa ainda não passou dos jornais e das intenções.

E de boas intenções está a direção regional da Cultura cheia.

Sobre o/a autor(a)

Deputada do Bloco de Esquerda na Assembleia Regional dos Açores. Licenciada em Educação. Ativista pelos Direitos dos Animais. Coordenadora do Bloco da Ilha Terceira
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